Evangelhos

Por: Eny Miranda

Surgem ao modo daqueles presentes que nos surpreendem sempre, embora saibamos que virão. Tudo se vai preparando surdamente, dia após dia, nos bastidores da vida visível, até que - tímidos, a princípio, depois sem reservas - aqueles róseos e corais de matinadas e crepúsculos e aqueles violetas e lilases de dor e beleza se abrem ao mundo, em ruas, rodovias, várzeas e matas fechadas, anunciando vida, morte e mistério. 
 
Desde o início do outono e durante toda a quaresma, entre pétalas, folhas veludosas e dolorosos espinhos, paineiras e quaresmeiras nos vão trazendo mensagens para as quais nunca esta(re)mos devidamente preparados, dada a nossa limitada humana condição. 
 
De um lado, os botânicos - estudiosos, sim, mas não detentores absolutos da verdade das plantas - falam em famílias e gêneros e espécies; em anatomias e fisiologias; em Malvaceae, Ceiba e Ceiba speciosa; em estrias fotossintéticas, acúleos afiados e rombudos e frutos que rebentam, expondo sementes envoltas em fibras finas e brancas (referindo-se às paineiras), e em Tibouchina granulosa (ou mutabilis ou sellowiana), folhas pubescentes, frutos deiscentes e incomestíveis (quando se referem às quaresmeiras). De outro lado, médicos, psicólogos e psicanalistas - igualmente estudiosos, mas ainda distantes dos mistérios que cercam o que os olhos veem e a mente registra, de fato - falam em córneas, pupilas, humores aquosos e vítreos, retinas, neurônios, neurotransmissores e sinapses; em segredos, deslizantes ou herméticos, de instintos, sensações e comportamentos; em Id, Ego, Superego... Mas não explicam por que a atmosfera pulsa de forma diferente quando paineiras e quaresmeiras manifestam sua natureza emissária, depois, acima e além do equinócio de outono e da louca “despedida da carne” (carne vale), e por que o homem não percebe essa natureza e esse pulsar ou, se percebe, não é capaz de compreender o seu significado.Talvez seja o poeta quem mais se aproxime da linguagem metafórica dessas (e de outras) mensageiras florais; ele, que não pensa em estudá-las nem classificá-las, mas em comungá-las; ele, que vê, infere e incorpora sua linguagem mediante elementos acientíficos e incorpóreos (puramente anímicos?); talvez só ele possa nos levar à alma a alma deste simbólico momento. 
 
Acorrei, poetas, que se abrem pétalas de vida e morte, nascidas entre veludos e espinhos; acorrei, que nos estão chegando evangelhos coloridos, e dolorosos; notícias de linhas admiráveis, e de entrelinhas por nós indecifráveis!
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 
 

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