A Copa de 1958

Por: Everton de Paula

Foi a primeira Copa do Mundo que eu entendi, que compreendi realmente o que estava acontecendo e acompanhei como torcedor. Tinha oito anos de idade. É claro, viriam outras Copas, outros títulos: Brasil bicampeão no Chile em 1962, tricampeão no México em 1970, tetracampeão nos Estados Unidos em 1994 e, por fim, pentacampeão em 2002 na Coreia do Sul.
 
Mas nada se compararia à Copa de 1958... Ao menos para mim. Não havia televisão, internet, celular... Somente pelas ondas médias das rádios sintonizadas em casa por aqueles aparelhos (com um olho mágico verde), alimentados por válvulas que esquentavam barbaridade. O som chegava com chiados e barulhos em ondas, ora mais ou menos audíveis, ora quase um silêncio absoluto. A família se reunia na sala e torcia por algo que não podia ver, apenas imaginar o que deveria estar acontecendo numa terra tão longe, habitada por um povo de língua e hábitos diferentes. Será que o Brasil daria conta do recado?
 
No início da Copa, havia um jogo, se não me engano, às 16 horas de um dia de semana. Era o primeiro jogo do Brasil. Dia 8 de junho de 1958.  Eu já havia completado o álbum de figurinhas. Tenho este álbum até hoje. Quer comprar? Não vendo, apenas deixo folheá-lo. E lá está a formação do time canarinho (os que mais entraram em campo): Gilmar (Corinthians), Djalma Santos (Portuguesa), Belini (Vasco), Zito (Santos), Zózimo (Bangu); Garrincha (Botafogo), Didi (Botafogo), Vavá (Vasco), Pelé (Santos) e Zagalo (Botafogo). Era isso mesmo: Rio e São Paulo forneciam (e forneceriam por muitos anos) jogadores à seleção. Com leve preferência aos atletas do Rio de Janeiro. O Técnico era o gordo Feola.
 
Pois bem, às 3 e meia da tarde, eu me encontrava na sala de aula do curso primário, 2º ano. A temperatura era amena, típica de uma tarde de junho. Dona Beni Ísper, a professora, explicou o que era uma Copa do Mundo, cantamos o Hino Nacional e fomos dispensados para ouvir o jogo pelo rádio. Saímos curiosos e esperançosos, acho eu. Dirigi-me a minha casa e lá encontrei a família reunida na sala, local onde se colocava o aparelho de radiodifusão.
 
O jogo era com a Áustria. Meu Deus, como parecia impossível ganhar! E ganhamos por 3 a 0. Euforia. Parecia que ia ser moleza. Mas o próximo jogo não poderia ser mais desanimador: 0 a 0 com a Inglaterra.
 
Minha mãe fazia bolinhos de chuva ou estourava pipoca para nós, torcedores longínquos. O cheiro gostoso que vinha da cozinha inundava a casa inteira e se mesclava à alegria da família reunida e da torcida, bem, digamos “organizada”. Já na terceira partida contra a Rússia, o Garrincha fez miséria, humilhou os adversários. Ganhamos por 2 a 0 e me lembro da farra que fizemos na calçada com os vizinhos. Brasil classificado para as quartas de final Nem sabíamos o que significava exatamente esta expressão e essa lógica de campeonato mundial de futebol. Tínhamos, por interesse, apenas a competição, a presença da seleção brasileira.  
 
Já na quarta partida, um vizinho que não tinha aparelho de rádio em sua casa pediu a meu pai licença para ouvir o jogo em nossa casa. Foi recebido com alegria, bolinhos e café. Sentou-se no sofá de meu pai, lugar de honra, penso hoje. O jogo foi contra a Irlanda. Ganhamos de 4 a 0.
 
Em pleno campeonato de mundial de futebol, no mês de junho de 1958, saí com meus colegas de quarteirão e fomos até à praça da Matriz. Vimos um aglomerado de pessoas em frente à Lâmina de Ouro, do Kairalla. Corremos para lá para ver o que estava acontecendo. É que o Kairalla, salvo engano, foi o primeiro a vender televisão em Franca. E havia um aparelho de TV exposto na vitrine principal. Estava ligada. E por algum meio técnico que desconheço até hoje, passava na tela toda chuviscada uma das partidas de futebol do Brasil. Algo próximo a um vídeo-tape, o que, acho, ainda não existia na época. Como era possível aquela imagem de uma seleção brasileira, tão longe de nós, e tão perto de nossas vistas, ali, na Praça Barão, na vitrine principal da Lâmina de Ouro? Ficamos extasiados ora com a imagem confusa em meio a chuviscos e ruídos, ora com a vibração do pequeno mas atento número de torcedores. Até o Pelotão estava no meio daquela gente e ninguém mexia com ele. Só quem é francano da gema sabe do que estou falando!
 
O próximo adversário era a França. Meu Deus, não dava pra ganhar dos franceses. Aquele país era muito mais desenvolvido que nós. E ganhamos de 5 a 2. Lavou a alma. Acho que a partir daquele jogo, nada mais detinha Pelé, Garrincha, Vavá, nossos heróis, além de Gilmar no gol, é claro!
 
Domingo, 29 de junho, jogo marcado para as 11 horas da manhã. Desta vez não ficamos em casa, mas sim na de uma tia que fizera raviolli e capeletti para comemorar uma possível conquista. O jogo era com a seleção dona da casa. A cada gol do Brasil, meu tio soltava um foguete. Foram cinco explosões nos ares claros de junho. Brasil ganhou de 5 a 2. Campeões do Mundo. Aí comecei a jogar botão, futebol de mesa, com meus primos e colegas. Tornei-me santista, extasiado pela figura de Pelé e depois Zito e Gilmar. Nunca mais parei!
 
Gravaram, depois, uma musiquinha eufanista em disco de vinil que ficou na memória de muita gente. Dizia assim: “A taça do mundo é nossa, com  brasileiro não há quem possa... Eêta esquadrão de ouro, é bom no samba, é bom no couro... “ Couro... simbolizava a bola de futebol, porque a bola, naquela época, era feita de couro. Pesava como não sei o quê, principalmente em dias de chuva, quando ficava encharcada.
 
Quanta diferença tecnológica e de comportamento das copas do mundo de hoje. Não quero ser saudosista, apenas memorialista. Mas até 1970 torcer para a seleção canarinha tinha um gosto diferente, valia a pena, valia a festa, valia o álbum de figurinhas, valia a torcida, era muito diferente, era outro clima, outra animação... 
 
Vale agora uma frase baseada em Machado de Assis. Em face dos abusos políticos, eu vejo a Copa do Mundo desse ano com um pezinho atrás, desconfiado das intenções de quem está no poder. As exigências inconvenientes do padrão Fifa, as jogadas políticas, as convocações, os resultados que talvez já devam estar combinados, como na Franca, como na Argentina. Fico com Machado: mudaram as Copas ou mudei eu?
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos

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