Ressurreição

Por: Jane Mahalem do Amaral

Há poucos dias vivemos a celebração da Ressurreição. 
 
Esse fato bíblico da vida do Cristo é profundamente provocador, pois ele mora no Mistério. Nossa mente racional procura encontrar palavras ou alinhavar fatos que permitam uma aceitação tranquila e uma explicação fundamentada. Como nada que conhecemos se parece com isso, então não temos referência e, quando nos faltam parâmetros, partimos para atitudes extremas: ou corremos para a fé, ou desconsideramos radicalmente a possibilidade da verdade.
 
A palavra Páscoa – Pessah em hebraico, Pasqua em grego – é a passagem, é passar. Estamos sempre passando, somos passantes, estamos aqui de passagem. Disso ninguém duvida: passamos da infância para a adolescência e depois passamos para a vida adulta. Passamos da saúde para a doença, da alegria para a tristeza, da ignorância para o saber, da mentira para a verdade, da descrença para a fé. E fazemos e refazemos esse percurso: do choro para o riso, do espanto para a serenidade, das trevas para a luz. Cristo, naquela Páscoa, passou para outra dimensão, passou desse espaço-tempo para outro espaço atemporal. Foi, quem sabe, para a Origem que nos sustenta.
 
Mas, a reflexão que acalenta minha racionalidade está em uma aprendizagem que venho confirmando : a ressurreição se faz a cada dia, a cada passo do caminho. Ressuscito quando modifico meu olhar julgador e consigo ver o outro do jeito que ele é, sem que isso me incomode. Ressuscito quando observo minhas palavras e escolho aquelas que não ferem. Ressuscito quando fotografo, com amor, o momento vivido sem desejar que ele seja diferente. Ressuscito quando não permito que pequenos conflitos tomem a dianteira, enchendo meu coração de ansiedade tola e vazia. Ressuscito quando percebo a efemeridade de tudo, abrindo mão do meu insignificante controle. Ressuscito ainda quando aceito a alternância da dor e da alegria, sem me apegar a nenhuma das duas. 
 
No Evangelho de Tomé que é um dos textos redescobertos em Nag Hammadi no Alto Egito, temos uma coletânea de frases curtas que são atribuídas a Jesus. Diferente dos outros Evangelhos, Tomé não fez relatos históricos, nem falou sobre milagres. Ele se propôs a registrar palavras e ensinamentos que foram ouvidos e repassados. E uma dessa frases é “Sede Passantes”. Isso significa dizer que somos peregrinos e transeuntes na terra. Estamos de passagem. Temos que passar. Tudo passa. Temos que realizar a nossa Páscoa quantas vezes forem necessárias. Realizar a nossa ressurreição. Haverá algo que não passe? Assim torna-se um sinal de saúde considerar-se um “passante”, pois isso seria a consciência da Realidade.
 
Vamos então, nesse caminhar incessante, buscando várias e diferentes ressurreições e  compreendendo que temos que ressuscitar enquanto vivos, enquanto passamos. E então o Mistério faz sentido, pois Ele só pôde abandonar o túmulo vazio porque já havia ressuscitado em vida. Ressurreição é iluminação, clareza e consciência em cada passo. Sem isso não há Páscoa.

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