De primeiro (4)

Por: Luiz Cruz de Oliveira

De primeiro, a desinformação das pessoas induzia muitas delas a dividirem os homens em apenas dois grupos. Um deles, um punhadinho de gente, eram os ricos, os donos das fazendas, das fábricas, das lojas, das residências enormes. O outro grupo era formado pela maioria - os trabalhadores. Muitos acreditavam que a ascensão social só poderia vir através da sorte grande, do bilhete premiado na loteria, ou através da conquista quimérica de um diploma de doutor.
 
A filosofia popular simplificava:
 
- Ou nasce rico, ou casa com mulher rica. Fora dai, só pobreza.
 
Apesar disso, alguns pais enxergavam que o estudo facilitaria a vida futura de seus filhos.
 
Por isso, grande parte das famílias que chegavam à cidade, oriundas do campo, sonhavam que seus filhos aprendessem a ler e a escrever o nome e depois estudassem para tentarem ser doutores.
 
Estudar, porém, era algo difícil. 
 
As escolas dos padres e das freiras só abrigavam os filhos das famílias muito ricas de Franca, do norte do Estado de São Paulo, do sudoeste mineiro. Esses religiosos administravam o Colégio Champagnat, o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, o Colégio Jesus, Maria, José. Muitos estudantes dessas escolas iriam estudar Medicina, no Rio de Janeiro; Direito, no Largo de São Francisco; ou cursar o Normal, no Colégio Caetano de Campos, na capital paulista.
 
A filharada dos trabalhadores geralmente frequentava apenas o curso primário e, em sua maioria, já estava apta para trabalhar em tempo integral.
 
Os meninos do centro da cidade estudavam no Grupo Escolar Coronel Francisco Martins, existente desde 1905 - inicialmente instalado em prédio onde hoje funciona a agência central dos Correios e Telégrafo. Os meninos da Estação estudavam no Barão da Franca, instalado desde 1926. As crianças que moravam nos lados da Avenida Presidente Vargas estudavam no Caetano Petráglia, instalado em 1933, e que funcionava em construção existente na esquina da Rua Padre Anchieta com a Praça João Mendes. Inaugurado em 1956, o Grupo Escolar Homero Alves funcionou na esquina das ruas Simão Caleiro e Campos Sales. Durante o dia, era o grupo escolar; à noite, era o famoso Ateneu escola particular.
 
 
Quando a Escola Normal Livre de Franca ganhou um prédio enorme, lá na Rua Líbero Badaró, e virou o Instituo de Educação Torquato Caleiro, muita coisa mudou em Franca. A escola era mantida pelo estado, a juventude pobre poderia continuar seus estudos de graça.
 
Houve, porém, um porém. 
 
A escola não comportava a meninada toda que terminava o curso primário e desejava continuar os estudos. O impasse foi assim solucionado: os alunos passaram a ser submetidos a um exame para a admissão ao curso ginasial.
 
Proliferaram então, também em Franca, os cursos de admissão ao ginásio. Eram escolas particulares. Eram caras. 
 
Assim, o sistema vedava à maioria das crianças da periferia o ingresso no ginasial.
 
A exceção não conta. Ela apenas confirma a regra. Mas existiu exceção.
 
Um dia, o professor Antônio Peixoto apareceu lá na Rua Caetano Petráglia, fez acordo com o pai e com a mãe de um garoto: eles tiravam o filho do serviço na marcenaria do Sô Alcindo, ele dava o curso de admissão de graça para o menino. 
 
Ele freqüentou o cursinho e, com aquele professor humilde, aprendeu operações com números inteiros e decimais, aprendeu frações, aprendeu a dividir. Aprendeu muito do que sabe hoje em dia.
 
No ano seguinte, foi estudar no IETC.
 
Os seus companheiros de grupo e de futebol de rua foram para as fábricas de sapato, para as marcenarias, pra as oficinas mecânicas, para os balcões de lojas.
 
As exceções se tornaram bancários, funcionários públicos, pequenos comerciantes. Foram desembarcar na tal classe média que, em verdade, está muito, muito distante do meio.

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