Edgar Allan Poe (1809-1949)

Por: Maria Luiza Salomão

O conto de Poe “O Barril de Amontillado” lido e analisado em um módulo da pós-graduação em Letras, foi pretexto de conversa no grupo de leitura que participo. O conto evoca algumas emoções, implícitas. A cargo do leitor fica a interpretação do que lê. Poe é um escritor para escritores, deixando explicitado como escrevia para capturar o leitor, e fazê-lo prosseguir, até a solução final, previamente maquinada passo a passo. O leitor meio que adivinha o que vai acontecer, mas queda enredado. Poderia abandonar a leitura, se ela não despertasse a curiosidade e não mantivesse, genialmente, um suspense crescente. 
 
Poe é um autor que me interessa pela ousadia na forma de descrever os desejos secretos e os movimentos de alma desprezados e não revelados, misturados, - o mal que habita o coração do homem e da mulher. Há um sadismo na própria escrita, e a forma como escreve o conto torna verossímeis atos cotidianos, contemporâneos, “inocentes”, mesmo em boas pessoas. Atos, no entanto, violentos, que as boas almas são capazes de sentir e realizar (ou apenas sentir no recôndito da alma).
 
Entre outros grandes escritores, Guimarães Rosa o imitou no estilo e na temática a princípio. Escreveu para a Revista O Cruzeiro (1928-1970), ganhou dinheiro como prêmio e a publicação de conto, em 1929, com um pseudônimo. O estilo de Guimarães Rosa revela, também, atos hediondos, como o daquela personagem que verte chumbo derretido no ouvido do marido que dormia (a Maria Mutema, no Grande Sertão: veredas), e que deixa enlouquecido o padre com suas confissões (levando-o à morte, sem que saibamos o que é que Maria Mutema lhe dizia). Mas, mesmo na escrita babélica de narrar maldades, as mais vis, Rosa promove metamorfoses (os abismos navegáveis a barquinhos de papel), gerando mil milagres.
 
Poe morreu em condições misteriosas, enterrado em Westminter, Baltimore. Uma lenda, perdida no tempo como todas as lendas, reza que no dia da sua morte, dia 19 de janeiro, cumpre-se um ritual no seu túmulo: alguém lhe deixa rosas e conhaque com torradas. Quando um grupo, uma vez, tentou descobrir a identidade do executante do ritual, outro grupo protegeu o desconhecido. Desde 2009 o ritual não se cumpre. 
 
Isso me leva a pensar como a maneira de ser e viver da pessoa marca e molda a forma como é lembrada. NO caso de Poe, o ritual gótico no seu túmulo lhe serve justamente. 
 
Nossas pegadas nesse mundo percorrem corações e corpos alheios: nem sempre à nossa revelia, mas também. Depende da porteira aberta ou fechada do alheio, mas dificilmente estaremos isentos daquilo que dia a dia, ano a ano vamos semeando à nossa volta. 

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