Flor da Lua

Por: Eny Miranda

Nestes dias em que paira no mundo da arte uma atmosfera shakespeariana; neste momento em que olhos se voltam para os 450 anos do nascimento de um escritor cuja grandiosidade da obra o conduz ao topo da literatura inglesa e da dramaturgia mundial, meu olhar, até então absorvido pela beleza de suas linhas e falas, é movido por algum mistério e subitamente resvala para outros ares, bem mais modestos, embora igualmente artísticos e também britânicos; é atraído pela força delicada de uma alma feminina - brisa leve, envolvente e persistente, empenhada na busca de um sonho: uma história de amor que envolve morte precoce e final feliz. Essa mulher, singela na dimensão física - sua e de sua obra - assume, pelo comportamento delicado e forte, contornos que vão além do que, na arte, pode ser registrado em palavras, formas, sons ou cores.
 
Refiro-me a Margaret Ursula Mee, ou simplesmente Margaret Mee, designer inglesa que registrava a vida com paleta e pincel: cada fio talhando um contorno, cada cerda imprimindo uma nuança, e os poemas assim se erguendo, nascendo na folha, suspensos em líquidos caules. Sim, uma poeta da botânica, que escrevia seus versos com pigmentos suspensos em água. A natureza era o tema; a aquarela, o verbo de Margaret Mee. Sépalas e pétalas versam a obra desta artista inglesa que se especializou em plantas da Amazônia brasileira. 
 
Mas o seu encanto transcende a obra assim registrada. Mee dedicou boa parte de sua vida a perseguir uma metáfora viva. A ela não interessava a natureza morta, nem a imaginada. Corajosa, foi buscar na fonte as águas de pintar o que passou a ser a sua razão de estar no mundo, o seu grande sonho. Foi capaz de superar a própria natureza, (aparentemente) frágil, de mulher quase octogenária, para colher, nos confins de uma densa floresta, em noite de lua cheia, a beleza de uma única flor - tornada em meta e metáfora, ética e estética de sua obra: a flor da Lua, que se abre, exala seu perfume, oferece seu pólen e se fecha, em uma só noite - um reflexo lunar da rosa de Malherbe. E foi atrás desta flor, efêmera e exótica, nascida de um cacto especial, acessível apenas a raros, privilegiados olhos, que uma mulher extraordinária navegou diversas vezes o Rio Negro em um frágil barquinho, num aparentemente louco “sonho de uma noite de verão”, quem sabe, dizendo para si mesma, como na peça de Shakespeare Oberon dizia a Puck: “Vai buscar-me essa flor.” Porque, ela sabia, essa planta, como aquela, devia ser vítima da flecha de Cupido. Com sua imagem e sua história despertaria em quem a visse e ouvisse o sentimento do amor. E esta extraordinária mulher que, em aquáticas pinceladas, eternizou o sonho finalmente alcançado, fez perenes, aos olhos do mundo, a flor da Lua e a da sua própria obra, e apaixonados por elas os que sabem de sua história. 
 
Shakespeariana na força, na mítica flor e na sensibilidade; feminina nos traços leves e na abnegada persistência da busca e do cuidado, serviu de inspiração e tema, pelo trabalho e pelo legado, para a cineasta Malu Martino, que dirigiu o belíssimo documentário Margaret Mee e a Flor da Lua.
 
Almas como a de Margaret Ursula Mee tornam mais luminosa a condição humana.

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