‘Medianeras’

Por: Sônia Machiavelli

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Tão bela e expressiva, única capaz de criar um substantivo, saudade, para definir emoção específica, nossa língua portuguesa às vezes claudica e não acolhe em seu léxico palavra que seja a exata tradução de um vocábulo estrangeiro. É o caso da hispânica medianeras. Encontramos no dicionário um termo parecido, com a vogal i antes da consoante r: ‘medianeira’. Mas este é um nome quase obsceno pelo que denota, ou seja, é sinônimo de alcoviteira, mulher que serve como mediadora de encontros amorosos. Uma função já perdida, pelo que se vê, ofício que desapareceu como o dos mascates. 
 
Para falantes do idioma espanhol, medianera às vezes aparece como adjetivo e acompanha o substantivo pared. Una pared medianera é aquela à qual os arquitetos chamam em língua portuguesa ‘parede cega’. Em geral é a lateral de um prédio que por sua proximidade com o edifício vizinho não pode ter aberturas e acaba recebendo outdoors ou mesmo obras de arte pop. Na Argentina, onde se passa a história contada pelo filme cujo título abre esta página, qualquer abertura nesta parede é proibida por lei. Mas em Buenos Aires, onde vivem os protagonistas, moradores vêm descumprindo ordens, em busca de mais luz para seus apartamentos na selva de pedra que é uma cidade de três milhões de habitantes.
 
É nessa metrópole que vivem dois jovens solitários que se esbarram o tempo todo mas nunca se encontram. Martin (Javier Drolas) se recupera de uma fobia que o levou a ficar dois anos enclausurado, temeroso de sair às ruas e ter de conviver com gente, algo que lhe era muito custoso. Web designer, ele vive mal numa sufocante quitinete e trabalha como free lance para clientes com quem estabelece rápidos contatos nas suas idas e vindas pela cidade. Mariana (Pilar López de Ayala) é arquiteta que não encontra ocupação em sua área, ganha a vida como vitrinista de lojas e aluga um apartamento um pouquinho maior que o de Martin. Os dois moram na extensa Avenida Santa Fé, endereço mostrado nas primeiras cenas, e no mesmo quarteirão, em edifícios que fazem face um ao outro. Sofrem as agruras da solidão urbana, aquela que se faz povoar de mil gentes que por eles passam indiferentes.
 
O roteiro enxuto de Gustavo Taretto, que acumula as funções de diretor e roteirista, condensa o relato em uma hora e meia de filme. A história se desenrola rápido explorando ora a comédia, ora a tragédia cotidiana desses dois jovens tão parecidos e complementares que levam o público a uma torcida crescente em favor de um encontro que seja redentor para ambos. A cena em que os dois se cruzam no movimentado centro portenho, e por instantes parecem formar um só corpo, quase arranca aplausos do público.
 
Nas ruas em que caminha levando troncos e membros de manequins extrapolando sacolas, em bela alegoria, ou na confusão do apartamento onde caixas se amontoam como se destinadas a serem abertas em dia distante, mais um dos muitos emblemas, Mariana ensaia gestos e pensamentos irônicos, um recurso de que lança mão para vencer o desalento de uma vida que precisa continuar depois de um rompimento amoroso. As vitrines que decora e enfeitam a cidade de fachadas tão díspares funcionam também como exercício de liberdade mínima no cenário urbano conturbado por lajes, fios, caçambas, entulhos e arquiteturas de diferentes cronologias que se justapõem numa babel de signos.
 
Esse mix arquitetônico parece constituir um terceiro protagonista, senão o vilão, na história que traz referência do universo da engenharia como título. Impossível não vê-lo como agente de uma saga que separa pessoas em lugar de uni-las, função que os grandes núcleos urbanos perderam. Pela voz de Martín, diz o diretor, a quem a pessoas e prédios inquietam: ”As separações, os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais a cabo, a falta de comunicação, a apatia, a depressão, o suicídio, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, as contraturas, a inseguridade, a hipocondria, o estresse e o sedentarismo são responsabilidade dos arquitetos.“
 
Assim desconectados na urbe, sem condições de se conhecerem pessoalmente apesar das tantas afinidades, os personagens principais tentam se conectar aos outros no mundo virtual, espaço de conhecimento mas não de emoções. Mas é essa possibilidade de encontros na web que parece acenar para a salvação num mundo pós moderno de arquitetura caótica e crescimento desordenado, algo que não é específico de Buenos Aires, pois já se tornou característica de centenas de cidades ao redor do mundo.
 
O final do filme, que tem nas medianeras sua grande metáfora, reserva a elas um papel sugestivo no cerrado universo de concreto em que foram se transformando as grandes cidades às quais apropriadamente alguém chamou de ”selvas de pedra“. Mas isso significa romper com o estabelecido, o que se torna impositivo diante de uma asfixia física e psíquica dos que estão condenados a viver em condições precárias no que se refere à luz, à beleza e ao encontro com o outro.
 
O DIRETOR
Gustavo Taretto  é portenho e tem 48 anos. Aos 13 ganhou do pai uma máquina fotográfica substituída por uma filmadora aos 18. Foi o início de uma paixão pelas imagens que o levou primeiro para exposição de fotos, em seguida para as agências de publicidade e depois para o cinema, onde começou fazendo roteiros para curtas-metragens. Estudou música e literatura, o que o capacitou ainda mais para o cargo que conquistou aos 37 anos, o de diretor geral de criação da Ogilvy Argentina. Seus trabalhos foram premiados em Veneza em 2002. Antes, em 1999, já começara a trabalhar com José Martins Suárez, para quem dirigiu três curtas: Cien pesos, Las insoladas e Medianeras. Todos ganharam prêmios importantes no cenário cinematográfico. Seu último trabalho, Hoy no Estoy, também teve excelente recepção crítica. 
De passagem por São Paulo no ano passado, Gustavo Taretto foi entrevistado pela revista Casa e Jardim, e deixou algumas pistas sobre seu processo de criação, seu gosto por determinados temas e sua preocupação com o caos urbano, a violência do trânsito, as irregularidades estéticas e éticas das grandes cidades, e especialmente aquelas da América Latina, como Buenos Aires e São Paulo. ” A contaminação visual é violenta; isso causa uma certa neurose, fobia, alienação; enfim, complica a vida de todos“. Sobre a Internet, de que gosta muito e se diz até viciado, embora tente controlar o tempo dedicado a ela, observa que no mundo contemporâneo as relações se tornaram mais virtuais e há vantagens e desvantagens. É necessário saber usá-la. Disso o diretor dá provas no final do filme, que no Brasil teve o título acrescido com a frase ”Medianeras- Buenos Aires na era do amor virtual“. (SM)

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