João e Amauri

Por: Mirto Felipim

249448
João tinha vinte e um anos. moreno deus, alto, forte, lábios cinzelados, sobrancelhas simétricas, olhos de jabuticaba, querido e educado. possuía tudo que um rapaz desejasse nos anos oitenta: família conceituada na sociedade local, possuidora de escritório prestigiado, férias na Disneylândia, fins de semana no condomínio “Top Manager”, churrascos concorridos, carro do ano, amimado e pretendido.
 
João tinha tudo que podia, mas João não tinha Amauri, a quem queria.
 
Amauri, onze anos mais velho, físico de esportista, rosto talhado, formas retas. pele alvacenta, meio curtida de sol de piscina e esporte ao ar livre, olhos claros, totalmente aberto ao diálogo no trabalho e tremendamente contido na vida pessoal. Trabalhava na firma dos pais de João, que era apaixonado por ele. mas Amauri não sabia e João jamais revelaria a ninguém, somente a ele. Herdeiro único, João seria fatalmente o sucessor num futuro ainda distante. assediado constantemente pelas oportunistas de plantão, vez por outra escalava alguma, semeando alguns beijos e carícias sem continuidade, mas o suficiente para no dia seguinte ser comentário. jamais consumaria o ato. guardava-se para Amauri, que não sabia ser aguardado. 
 
Amauri namorava Araci. gostava mesmo era de ficar sozinho e tinha perturbações, quando tomava banho no vestiário com colegas, depois das peladas no clube. logo que pode, libertou-se da casa dos pais foi morar sozinho. Inevitável frequentar a casa dos patrões no condomínio um ou outro fim de semana, geralmente churrascos, sempre convidado por João, que considerava um menino bacana.
 
Numa dessas ocasiões, brigado que estava com Araci, notou alguma coisa mais significativa nos olhares de João.
após brincadeiras, à beira da piscina, deitaram-se para tomar sol. os olhares e insinuações de João, apesar de discretos e ligeiramente etílicos, o deixaram ao mesmo tempo alerta e curioso. recolheu-se no silêncio, como sempre fazia na vida pessoal, quando não se sentia confortável. 
no entanto algo também começou a instigá-lo, como se um jogo estivesse em andamento e ele não quisesse interrompê-lo, apesar de temer o desfecho. Amauri sentiu a mesma agonia e desconsolo de quando tomava banho na escola após a educação física ou nas férias com os primos e mais tarde nos vestiários.
 
Tinha alguma consciência do que acontecia, mas evitava traduzir. namorando, e vez em quando fazendo sexo com alguma garota, tranquilizava sua consciência. Levantou-se e pulou na piscina.
 
João, cada vez mais fascinado, observava. sabia que não teria coragem de se jogar de vez naquilo que seu corpo tanto exigia. enquanto o futuro amante nadava e gastava energias, permitia-se delirar. Não sabia e não queria pensar no que faria no dia seguinte. acreditava que não aconteceria, não por ele, mas Amauri jamais aceitaria consumar o ato. A tarde acabava, quando Amauri anunciou que estava de partida.
 
João fez o convite por fazer, adivinhando a negativa. Já que estava brigado com Araci, porque não ficava e passava a noite com a família? considerando a insistência consistente dos patrões e o íntimo desejo inconfesso, Amauri aceitou. Foram os últimos a se recolher, quando praticamente todo o condomínio jazia em paz noturna.
 
João agarrou uma garrafa de vinho e, como se fosse rotineiro, conduziu Amauri para um dos quartos de visita, sem a resistência que antevia. Porta trancada e o inevitável. Amauri ainda tentou uma frágil negativa. mas o desejo de se libertar também o incendiava. 
a manhã tentava se intrometer pelas frestas e ainda se encontravam nos braços ardentes um do outro, consumindo-se na febre sem futuro, no calor nefasto do desejo condenado, no gemido surdo da proibição inevitável, na provisória e única possibilidade de felicidade decisiva e fugaz. Súbito, Amauri se libertou dos braços e lábios proibidos. levantou-se. lívido, sentenciou que não queria jamais que aquilo se repetisse. lamentou tudo e ordenou que o parceiro saísse e que nunca mais se lembrasse do que havia acontecido. prometeu se demitir no dia seguinte e sumir.
 
João vestiu a bermuda e a camiseta e saiu em silêncio. Ainda sentindo o efeito do álcool e de todo o turbilhão de sentidos experimentados até a exaustão, Amauri deitou-se, tentando ordenar os pensamentos. uma eternidade depois, entre a realidade e o tênue limite da insensatez, resolveu se levantar e ir embora. 
 
Um grito histérico e interminável invadiu sua cabeça, perfurando sua insanidade e trazendo-o para a rígida realidade. Era a empregada, que, ao aproximar-se da piscina para a habitual faxina pós-churrasco, deparara-se com a água avermelhada e o corpo de João no centro do quadro medonho, com um sorriso definitivo, alfinetado pelas fagulhas de sol que se intrometiam entre as nuvens.
 
João havia se castrado dentro da piscina. (Conto baseado em fato nunca acontecido)

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras