De primeiro (5)

Por: Luiz Cruz de Oliveira

De primeiro, as fábricas grandes tinham sereias. Às onze horas, quando elas gritavam, era como se a Rua da Estação acordasse outra vez.
 
O som estridente assoviava, subia aos céus, entrava nas casas da vizinhança, e as fábricas pareciam formigueiros donde bichinhos eram expulsos. Meninas e meninos, moças e rapazes, mulheres e homens disparavam em correria, semelhando maratonistas em busca da linha de chegada,  estendida lá na distante periferia. A correria se explicava: tinham menos de hora e meia para chegarem a casa, para almoçarem, para retornarem ao serviço.
 
Na esquina da Rua do Comércio, ficavam os Calçados Spessoto. Lá embaixo, na esquina da Rua Couto Magalhães, ficava a fábrica do Samello. Pouco mais abaixo, defronte da fábrica de móveis Meneghetti, ficavam os Calçados Terra. Quase na esquina da Rua Homero Aves, funcionava a fábrica do senhor Delcides Flausino. E, lá no alto da Estação, no mesmo quarteirão da loja Cerqueira Pucci, ficava a fábrica dos Licursi.
 
Os empregados entravam e saíam das fábricas no mesmo horário, por isso, às onze horas, um povão subia e descia a Rua da Estação. As calçadas estreitas não comportavam tantas pernas, então algumas seguiam pelo leito da via, pisando o calçamento de paralelepípedos. 
 
Não afrontavam perigos. Ali, o trânsito maior era o de carroças. Só de quando em quando, descia ou subia a rua, lentamente, um ônibus da Empresa São José, ostentando no alto de sua lateral a inscrição que orgulhava:  Franca terra que produz o melhor café do mundo.
 
O coletivo era bonito, colorido, mas suas idas e vindas estavam distantes dos salários mesquinhos dos sapateiros.
 
O sonho de consumo daqueles trabalhadores  se concentrava numa das bicicletas Monarchi ou Calói que namoravam, e que ficavam sempre expostas lá na Rua do Comércio, na loja do Doutor das Bicicletas. Mas, enquanto o sonho persistia sonho,  os operários ajudavam a enfeitar a atual Rua Voluntários da Franca, integrando aquela massa colorida e movediça que, por quinze, vinte minutos, fazia o longo corredor semelhar barracas de São João, enfileiradas e enfeitadas com bandeirinhas multicores.
 
Meus companheiros de grupo e de folguedos, em sua maioria, fabricaram sapatos por uma vida inteira. Em sua maioria, não alcançaram sua bicicleta.
 
Meu primo, Fafico, foi exceção.
 
Depois de meia vida dentro da fábrica de Calçados Terra, demitiu-se, foi trabalhar em balcão de farmácia. Um dia, tornou-se proprietário de uma. 
 
Então, as fábricas já se tinham mudado para longe do centro, o vocábulo sereia fora substituído por sirene.
 
E a Rua da Estação já recuperara seu verdadeiro e definitivo nome: Rua Voluntários da Franca.

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