Mamãe Dona Rita

Por: Hélio França

São muitos anos vividos e convividos juntos, mais precisamente sessenta e três, tendo como mãe a Dona Rita. Me acostumei a chamá-la assim quando moço e ficou para sempre. Lógico, seria piegas dizer que é a melhor mãe do mundo, afinal, todo filho tem  a melhor mãe do mundo. A minha porém é de uma autenticidade incomum. De gênio forte, herdado da família Coelho, se tiver  que dizer algo a recriminar qualquer pessoa fala na cara, doa a quem doer. O coração ? De ouro sim, bondosa ao extremo e  participativa de movimentos católicos beneficentes. Também sempre está disposta a ajudar os parentes, amigos ou até mesmo pessoas desconhecidas. Preocupa-se com todos,até demais. Seja em datas festivas ou acometimentos de doenças, lá está a Tia Rita, como é chamada por todos que a conhecem. 
 
Oitenta e sete anos, lúcida e batendo pernas pra cá e pra lá, os cabelos branquinhos em nuances azuladas através da rinsage, anda muito a pé, embora como ela mesma diz, vem se sentindo “um pouco mais cansada por causa da idade.” Combatedora incansável da minha barba, sempre que a cultivo diz : “ meu filho, tira essa barba que te deixa mais velho” , “corta esse cabelo mais curto que nem de homem”, e por aí vai... 
 
Meu pai nunca deixou a barba crescer, muito menos o cabelo, e eu bem sei por quê. Como sábio que era, nunca contestou a Dona Rita, apenas obedecia, e assim viveram em paz e harmonia por mais de cinquenta anos. Foi o primeiro e único namorado que ela teve. Minha mãe morava na Fazenda Recreio, do meu avô João Pedro, ali pertinho de Igaçaba, onde meu pai possuía uma loja intitulada “Casa França”, conhecida naqueles tempos por “venda”, onde se encontravam desde tecidos a fumo de corda, enxadas, cereais, creolina etc 
 
O primeiro beijo, diz a Dona Rita, foi no meio do cafezal, escondido de todos. Daí para o pedido de casamento houve muitas batalhas que os dois tiveram que travar contra os irmãos e o pai dela. Imagina, não admitiam a filha caçula casar-se com um almofadinha que não era do ramo de gado e café, ou para ser mais claro, não tinha o costume de pisar em bosta de vaca ! 
 
Mas como diz toda orgulhosa a Dona Rita, o tempo viria a mostrar que seu marido se tornou o genro mais querido de seu pai, tanto é que foi presenteado depois com um revólver niquelado com cabo de madrepérola e um legítimo relógio suíço de bolso, marca Tissot, de ouro com dezesseis rubis incrustados em suas engrenagens, funcionando perfeitamente até os dias atuais, sem nunca ter atrasado um segundo. Dentro de sua ingênua e não falsa modéstia, costuma dizer que: “ marido igual o Josaphat não há !” 
 
Neste domingo comemorativo ao dia das mães, quero exprimir e renovar nestas poucas palavras, a satisfação que tenho em ser filho da “Dona Rita”, essa mulher guerreira que já perdeu todos os soldados de seu regimento, marido, irmãos, irmãs, vários parentes. Mas ela continua empunhando a bandeira de um exército invisível e, para ela, indestrutível, tamanha sua força interior, sua fé e coragem em prosseguir sempre avante. Mesmo com o peso da idade a lhe degradar o corpo físico, fato este, incontestável, porém insignificante para destruir o esplendor da sua alma !  Parabéns mamãe Dona Rita ! 

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