Ela

Por: Débora Menegoti

No meu sonho infinito de possuir o mundo me revolto, meu sonho não cabe no mundo. Só em mim. Apertado, arde. Chamo meu infinito de “Ela”. Ela teria o dom de edulcorar. Pensei em tatuar em sua homenagem Edulcoração no braço. 
 
Quem diz que ela não existe? Eu a criei, ela existirá. Agora é só acertar-me comigo, alguns detalhes bastam para começar. Depois é só fechar os olhos. Sentir aquecer o coração e a essência não precisa de se materializar. Precisa? Por quê? Quero assim desmistificada para o tempo breve do meu sempre, para meu modo atípico de bem querer, gosto de coisas pequenas, sou de mimos... Mas aprendo só. Aprendemos todos. Ninguém é capaz de aprender pelo outro, arrepender por outro. Mas, enfim, a quero para um sempre bem íntimo que é finito. Até mesmo nossos parâmetros de gostos e apreciações são finitos, mutáveis. Projeções, faltas e falhas a modelam ao reflexo de minha espontaneidade e se a essência é para mim algo bom, na minha criação, sou mãe e esposa dessa ilusão; camaleoa. Livre dos grilhões, livre da Doriana.
 
Quero assim porque ela também não gosta de sexo e nem é insistente em querer saber, entender e sentir o que não sente. Também porque não há critérios de desconfiança mútua e, é claro, a quero pelo simples fato de não haver disputas. Ela compreende que às vezes é mesmo melhor deixar-me só, respeita fraquezas e estimula reconstruções. 
 
O seu maior dom será saber reservar-se da minha ira, ensinar como não engolir as chamas desse fogo. 
 
A cada momento a quero mais, porque imagino uma curva nascente do seu calcanhar subindo sinuosa pelas panturrilhas cor de doce de leite. Não é de tocar. Não posso. Não posso esparramar nem misturar as cores. Seu vestido é quase um vento carmesim. E seus delicados pés pisam areia fofa ou macias cinzas que minhas brasas mortas deixaram pra trás.
 
Se ela vir com algum castigo, não poderei dar banho. Terá um ar materno um pouco ausente. Freud sabe por quê.
 
Seu perfume não se compara a essas portas cheirosinhas de loja onde ensimesmadas gastam milhões; ela tem cheiro de água benta nas pedras. E não faz nada sujo. Ela sobe em árvores, nada nos rios, chupa os dedos sujos de doce e de guache também. Não me enjoa. Não ensoberba três vezes ao dia. Ela gosta do feito nas mãos ou na natureza, do que é raro e familiar. Ela não se envergonha de carregar embrulho e seus músculos rijos parecem ter lavado antes de chegar aqui toda roupa suja da sua casa alma. Ela sabe rir...
 
Nem gasta batom e pó, mas penteamos os cabelos uma da outra. Ela desconhece o que é limite. Impõe-me o silêncio para me provar que ela é realmente assim como quero. Obriga-me conviver comigo mesma. Não é perfeição, mas é divina. Tem dias que é de Ébano e Sândalo. Tem dias que é Ewá cor de sal. Mas seus dentes-marfim são imutáveis, um escândalo! Tão claros e provocantes que se os tocasse ela perderia o encanto e desapareceria por um breve instante de sempre. 

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