Abdias do Nascimento, o múltiplo

Por: Sônia Machiavelli

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Poetas são arautos do mundo, disse alguém. Eles chegam na frente e apregoam, proclamam, noticiam aquilo que às vezes ainda não tem forma definida mas já está sendo gestado. Assim Abdias do Nascimento, que nasceu em Franca em 1914, num 14 de março, data consagrada à Poesia, e revelou desde sempre que seu destino estava ligado à luta contra o preconceito racial 
 
Segundo filho da doceira Josina e do sapateiro Bem- Bem, viu logo que a vida não seria bolinho. Historicamente muito próximo da escravidão, abolida por lei em 1888, sentiu cedo a lâmina fria da segregação, que lhe inspiraria alguns versos tristes: “Ao espelho te vejo negrinho/ Te reconheço garoto negro/ Vivemos a mesma infância/ A melancolia partilhada/ De teu próprio olhar/ Era senha e contra senha/ Identificando nosso destino/ Confraria dos humilhados/ A povoar de terna lembrança/ Esta minha evocação de Franca”. 
 
Ficou na cidade até 1929, ano em que se formou contabilista no Ateneu Francano de Ensino, alistou-se no exército e foi morar em São Paulo. Um ano depois já se perfilava como contestador, engajando-se na Frente Negra Brasileira, que lutava contra a segregação racial em estabelecimentos comerciais da capital. Preso pela ditadura Vargas, saiu da cadeia ainda mais aguerrido e logo se tornou líder do grupo que ganharia adesões importantes para organizar o Congresso Afro-Campineiro em 1938. 
 
Tinha trinta anos e uma vontade férrea de denunciar e combater o racismo quando fundou o Teatro Experimental do Negro. Dramaturgo, escreveu textos de protesto, como O sortilégio; diretor, levou ao palco peças com a mesma temática: O filho pródigo, de Lúcio Cardoso, e Aruanda, de Joaquim Ribeiro. Colocou em cena atores negros formados por ele mesmo, que muitas vezes tinha de assumir a função de alfabetizador e psicólogo. A experiência revelou-se transformadora para os integrantes do laboratório, que passariam a reproduzir sua vivência, desenvolvendo a autoestima e abrindo espaço a muitas vozes. Afirmar a diferença como motivo de orgulho e força foi a grande lição ensinada e aprendida. A entidade patrocinou em 1945 a Convenção Nacional do Negro que propôs à Assembleia Nacional Constituinte do ano seguinte um dispositivo definindo a discriminação racial como crime.
 
A atuação como dramaturgo não excluía Abdias do Nascimento do magistério e da literatura. São deste período três livros de ensaios, O negro revoltado, O quilombismo e O genocídio do negro brasileiro, que o tornariam conhecido além fronteiras, e poemas que seriam recolhidos no livro Axés do Sangue e da Esperança: “ Não direi que isso é poesia/ talvez lembranças/ fantasia/ quem sabe murmurar de sonhos/ testemunho ou biografia.”
 
Em 1950 Abdias organizou o Primeiro Congresso do Negro Brasileiro, onde cunhou a frase ‘a cor da pobreza no Brasil’ e trouxe à tona a questão do desemprego, do subemprego e dos favelados sob um ângulo sociológico. Começou nesta época a questionar o valor da Lei Áurea, que lhe parecia apenas simulacro de liberdade, uma vez que atirara ao léu alguns milhões de escravos sem condição de sobrevivência fora da senzala. Passou a destacar cada vez mais a importância histórica e moral de Zumbi dos Palmares e o significado amplo dos quilombos como focos de resistência onde era possível defender a autonomia e preservar a identidade. A criação nos anos 80 do Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado no 20 de novembro, data da morte de Zumbi, constituiu desdobramento dessas ideias. 
 
O emblemático ano de 1964 o encontrou em Nova York, aonde fora falar de seus livros em algumas universidades e sobre um filme do qual participara como ator a convite de Cacá Diegues, Cinco vezes favela. Em contato com artista americana, descobriu o gosto pela pintura. Era o início de nova atividade que lhe permitiria evocar imagens do candomblé, do vodu e dos ideogramas adinkra da África ocidental, em telas depois expostas no Museu de Arte Negra de Nova York.
 
De volta ao Brasil, e à frente do seu teatro, teve nome incluído em vários inquéritos policiais militares. Resistiu até 1968, quando o AI-5 o forçou a se exilar. De novo nos Estados Unidos trabalhou como professor universitário, e se tornou amigo de Leonel Brizola. Com o processo de abertura democrática em andamento, retornou ao Brasil. Fundou com o gaúcho o PDT e estruturou o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, na PUC/ São Paulo. Candidatou-se à Câmara dos Deputados pelo Rio de Janeiro e, como suplente, assumiu uma cadeira em 1983, voltando em 1985. Cinco anos depois, tornou-se senador ao substituir Darci Ribeiro, alçado a uma secretaria de governo. Manteve-se na vida política até 1999.
 
Pouco antes de sua morte, aos 96 anos e lúcido, disse em entrevista que “o racismo no Brasil se caracteriza pela covardia. Ele não se assume e, por isso, não tem culpa nem auto-crítica. Costumam descrevê-lo como sutil, mas isto é um equívoco. Ele não é nada sutil, pelo contrário; para quem não quer se iludir, ele fica escancarado ao olhar mais casual e superficial. O olhar aprofundado só confirma a primeira impressão: os negros estão mesmo nos patamares inferiores, ocupam a base da pirâmide social e lá sofrem discriminações e rebaixamento de sua autoestima em razão da cor. No topo da riqueza são rechaçados com uma violência que faz doer.”
 
Este homem desdobrável morreu no dia 24 de maio de 2011 e de acordo com desejo expresso em vida, teve corpo cremado e cinzas lançadas sobre o quilombo onde viveu Zumbi, na Serra da Barriga, a poucos quilometros de Maceió. Dele se pode dizer que nasceu poeta, tornou-se dramaturgo, professor, pintor, ator, político, e se fez herói, suportando exemplarmente uma sorte incomum com coragem, tenacidade, generosidade e extrema coerência.
 
Procedeu com espírito de justiça a Câmara Municipal de Franca quando aprovou seu nome, indicado pelo então vereador Vanderlei Tristão, para prédio público de nossa cidade, a ser inaugurado neste mês.

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