De primeiro (6)

Por: Luiz Cruz de Oliveira

De primeiro, viajar de Franca a São Paulo era uma aventura, aliás, epopeia desenhada na obra A Viagem, de 1995, do escritor Mauro Ferreira.
 
O recurso menos incômodo consistia em  viajar de madrugada, numa perua – semelhante aos atuais micro-ônibus, até a estação ferroviária de Barrinha. O direito de exploração dessa linha pertencia, então, ao senhor Válter de Oliveira. 
 
Em Barrinha se podia embarcar em trem da Companhia de Estrada de Ferro Paulista, cujos vagões eram mais confortáveis que os da Companhia Mogiana – havia até vagão restaurante -, e ir até a cidade de Campinas. Dali, embarcava-se  noutro trem e, em cerca de três horas, chegava-se à capital paulista.
 
- Nélio, motorista aposentado da Viação Cometa, complementa:
 
- O trem que saía de Franca era um cata-jeca. Fazia muitas paradas até Campinas. A gente demorava um tempão pra chegar a São Paulo.
 
Um dia, o progresso chegou a Franca.  Veio  lentamente, como se cavalgasse cavalo velho e cansado. Mas chegou.
 
A industrialização do país obrigava os governantes à construção de estradas novas, ao aperfeiçoamento das existentes. O Estado de São Paulo, berço dos veículos brasileiros, duplicou a via Anhanguera entre Jundiaí e Campinas na gestão do governador Ademar de Barros.  O tapete negro avançou em breve até Ribeirão Preto, até Batatais. O esforço despendido para isso deve ter sido enorme, porque o asfalto interrompeu sua caminhada, dormiu ali por anos, incapaz de percorrer a pequena distância que faltava para chegar à terra das Três Colinas.
 
Felizmente, as prefeituras de Batatais e Franca se empenharam, alargaram a antiga estrada boiadeira, que ligava seus municípios, cascalharam seu leito, construíram pequenas curvas de nível, na e ao lado da via, a fim de evitar a erosão, tornaram-na transitável por caminhões, por carros, por ônibus. A partir daí, nossa região mereceu linha exclusiva de ônibus Franca-São Paulo. 
 
A concessão coube à Viação Cometa que começou a operar a partir de nossa cidade,  no ano de 1954. Sua agência, dirigida pela senhora Alzira Billi Gonçalves, localizava-se na Praça Barão da Franca, onde chegavam e donde saíam os ônibus. Algum tempo depois, a agência da Cometa se transferiu para a Praça Nossa Senhora da Conceição, perto do Bar Tubarão.Posteriormente, instalou-se definitivamente na Estação Rodoviária.
 
Hoje, quando há rodovias duplicadas ligando nossa cidade ao litoral paulista; quando existe a opção de viajar pela via aérea; quando há veículos possantes, encurtando sobremaneira as antigas distâncias; fica difícil imaginar o sacrifício que representaram os primeiros e longos deslocamentos.
 
O sacrifício maior estava  no trecho entre Batatais e Franca.
 
O ônibus era imponente - retrato do progresso que desbravava, qual bandeirante moderno, alcançava o norte paulista. 
 
No entanto, não havia como evitar o desconforto: pelas janelinhas do ônibus, embora fechadas, entrava uma poeira fina que restava  nas camisas, nos olhos, nas almas dos que conservam no peito aqueles tempos em que quase tudo começava para a Franca de hoje.

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