A revolta da cola universal

Por: Cristiane Ávila Paulo

A cola foi comprada para sua função principal: colaborar na confecção de um lindo e peculiar mosaico, composto de materiais diversos e inusitados. Estava no rótulo: “Cola transparente universal. Ideal para colar papel, cartão, plástico, vidros, tecidos e cerâmicas. Utilização artesanal.”
 
Mas a cola revoltou-se. Relutou em incluir no mosaico seu elemento mais difícil: o vidro. Teimoso, ele não combinava com a delicadeza do papel, do cartão, do tecido e do plástico, mas alinhava-se quase que perfeitamente com a dureza da cerâmica. Esta uma antiga, mas sempre destoante parte do grupo.
 
Inconformada com a coadjuvância necessária, a cola não enxergava sua primordial importância na execução da tarefa. Queria ser a estrela, mas o processo de secagem quase a fazia desaparecer na decoração. A cada evento para montagem tentava de tudo para se destacar, mas a realidade não deixava. Desesperada e sempre apoiada pelo tecido, buscava diferentes meios de compor o mosaico à sua moda.
 
O vidro, cansado, rebelou-se e desistiu de participar do artesanato, mantendo a gostosa amizade com a cerâmica. Dia após dia, confirma a já imaginada indisposição de alguns daqueles materiais em concluir o belo trabalho.
 
Resultado: a cola na prateleira, cada vez mais transparente, e o mosaico lá por fazer. As pecinhas? Guardadas na caixinha, esperando serem unidas pelo tempo, ou dissipadas pelo vento...  

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