Sem cera

Por: Janaina Leão

250945
Hoje é dia de falar o que eu penso, mesmo que não seja politicamente correto. Detesto engomadinho que se acha melhor que os outros e mano que também segue essa linha. Adoro quem passa roupa, sai bem cuidado e volta saudável da balada. Gosto de quem gosta de incenso e de quem pratica meditação. Quem diz bom dia ao porteiro, troca ideia na fila do pão ou do açougue e que não faz cara feia na fila de pagar as contas. Eu gosto de quem deixa o pedestre atravessar a faixa mesmo que o farol esteja verde. Detesto quem destrata velhos. 
 
Eu adoro gente que dá e pede receita na feira. Não gosto de Machado de Assis, me perdoem, fui obrigada a lê-lo nos vestibulares e ainda não fizemos amizade, apesar de reconhecer que ele é um dos maiores do mundo. Adoro Paulo Coelho, Gabriel Garcia Márquez e, claro, não dispenso o choque de Clarice e Nietzsche. Saramago para acordar da mortalidade e de nossa insignificância. 
 
Eu gosto das pessoas caladas, talvez porque eu inveje os contidos, mas sinceramente: eu aprendi a gostar de mim, mesmo na TPM. Tenho o maior prazer de dar bom dia aos passantes. De manhã com o sol nascendo ninguém odeia ninguém. Detesto ironia e deboche, como dizia um Outro, “tem quem goste dos olhos e tem quem goste das remelas”. Gosto de viajar e fazer amigos. Gosto tanto do Zezinho, está na Europa o baiano, mas Laryel, minha bruxa, está em Guarulhos e eu a abraço sentindo todos que estão longe, mas tão dentro que nenhum outro de perto se compara. 
 
Tem gente que abraça de lado, detesto assim, apesar de perceber que esse tipo de abraço é necessário até que um Rapport seja bem sucedido. Abraço bom é de frente, coração com coração, os braços se cruzam na diagonal e a gente se sente aquecido. Tem os de traidores, mas quanto a estes eu estico logo o braço e estendo a mão, porque abraço é sagrado e eu só dou em quem eu gosto. 
 
Outra coisa que eu adoro é a puxa da dona Lila. Lembro-me de vovó Odette... Ela trazia uma de morango e uma de chocolate pra minha irmã Nayara e para mim. Comíamos cada uma já de olho na puxa da outra.
 
Detesto quando percebo que um comportamento nega o que uma boca diz. Nessas horas me sinto confrontada na malícia. 
 
Adoro o contraste do mato com o céu, adoro beijo com amor e torrone que eu compro no Graal. 
 
Gosto de ajudar as pessoas, principalmente as que me acolhem. 
 
Já sei auto embalar-me, mas não dispenso afagos.
 
Tenho habilitação A/B, mas hei de tirar a D/E só para contrariar uns dogmas e contornar mapas pilotando minha própria vida. 
 
Gosto de catar coisas que as pessoas deixam cair e entregar sorrindo. Gosto de fazer presentes com minhas próprias mãos ao invés de comprá-los. Acredito na criatividade humana para salvá-la da auto sabotagem. 
 
Detesto grito e som alto, concordo com quem disse que rir de tudo é desespero. 
 
Tenho obsessão com simetria, organização e limpeza, mas isso só me ajuda. 
 
Tenho dois cachorros e uma gata, mas ainda chego lá, sitiozinho com tudo que eu gosto plantado ali. Parreira de amoras para enfeitar o caminho da porteira até a casa e pra mais de 12 cachorros. Os gatos são indomáveis, neste aspecto que procriem! Um cavalo da montanha, uma vaquinha malhada, muitos patos, galinhas e, claro, um pavão a que eu darei o nome de Eu. E Eu abrirá suas penas toda vez que chegar visita. Ah tem também a tela, não a de promessas - por que lá se Deus quiser não terá sinal Wi-Fi, a tela de tinta a óleo, que eu vou pintar todos os dias, como se fosse um diário de um tempo que se tornará cada dia mais sereno. 
 
E talvez um amor, paciencioso e sincero, que saiba ser feliz sozinha - olhando-me da janela com carinho enquanto prepara nosso café.

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