Profissão de fé

Por: Everton de Paula

Quando alguém, em Franca, relembra tempos de estudos no antigo IETC das décadas 50 e 60, invariavelmente recorda pessoas marcantes da época: o velho major, bedel da escola, a dona Beatriz, os professores cada qual com sua personalidade e características indeléveis... Mas há sempre uma figura central: a do diretor Júlio César D’Elia.
 
Fácil descrevê-lo: homem forte, de porte alto, ombros eretos como um militar, semblante sério, ariano; trajava invariavelmente um terno de linho branco e óculos Ray-ban verdes. Nós, alunos da época, sabíamos muito bem de sua braveza, de seu rigor quando ele próprio inspecionava pátios, banheiros, salas de aula e encontrava algum aluno ou aluna praticando qualquer atozinho ilícito sob as luzes do regimento interno disciplinar da escola. Hoje, quando ouço sobre a falência disciplinar nas escolas estaduais, digo comigo mesmo: ‘Esta escola anda merecendo um Júlio D’Elia!”
 
Ao relembrá-lo, muitos dizem de sua rigidez de comportamento, de sua inflexibilidade. Mas poucos dizem de seu lado humano ou recordam de suas lições.
 
Guardo uma.
 
Talvez tivesse eu 13 anos. Não me recordo muito bem por que razão, certa tarde, eu me encontrava sentado num dos degraus da escada que levava ao corredor do pátio. Era certo que me achava triste, aborrecido por algum acontecimento na escola (uma briga, uma repreensão, uma nota baixa, ou isto que hoje se chama de bullying...Outro detalhe de época: sofríamos bullying quase todos os dias, mas não dizíamos nada aos pais; resolvíamos no tapa ou na diretoria. Não me lembro de ter ouvido de algum colega daquele tempo dizer que ficou com traumas psicológicos por isso. Nem eu me desesperei por ser o reserva de goleiro da equipe de futebol da minha classe e me chamarem de “café-com-leite”. Mas isto é outra história). O certo é que me encontrava triste, na escada, naquela tarde. Poderia ser até mesmo uma precoce manifestação dessa tristeza que me acompanha vida a fora.
 
Seu Júlio aproximou-se de mim, pôs a mão em meu ombro e disse: “O velho professor Champagnat dizia que quando um aluno se encontra triste no pátio, é porque ele tem espinho no pé ou no coração. Como você está calçado, acho que você tem alguma tristeza no coração. Lembre-se de que a vida não é tudo o que a gente quer, mas tudo o que a gente tem. Portanto levante a cabeça e trate de ser feliz.”
 
“Tudo que a gente tem...” Talvez ali estivesse o centro do problema. Mas o que me impressionou não foi tanto o que ele disse, mas o tom em que falou: era o tom de quem aceita um desafio para a luta, não para a derrota. Fui para minha sala, pedi licença à professora (Elza Foster), entrei, sentei-me à carteira e fiquei pensando no ocorrido.
 
Logo daria o sinal.
 
Recolhemos nossos materiais e voamos para casa.
 
Tirar o uniforme.
 
Ficar descalço.
 
Brincar na calçada.
 
Tomar banho.
 
Jantar.
 
Ouvir a Rádio Nacional.
 
Deitar.
 
Dormir.
 
Na manhã seguinte, lancei mão do que tinha um corpo ainda pequeno, mas cheio de vigor e uma vontade enorme de fazer algo útil: estudar, colocar o quarto em ordem, sabia-se mais lá o quê, já que aos 13 anos fazemos poucas coisas chamadas “úteis”.
 
Aquelas poucas palavras de Júlio D’Elia fizeram-me ver aquilo em que ainda acredito depois de tanto tempo: que o momento presente é mais importante que passado e futuro juntos. Que é no presente que construímos nosso amanhã. Para que a vida tenha sentido, a gente deve partir do ponto em que está no momento e com os recursos que se tem. É isto: quais minhas armas? Estas? Pois então é com elas que duelarei.
 
É claro: uma criança de 13 anos não pensaria assim, mas começou naquele tempo a germinar a sementezinha que Júlio D’Elia deixou plantada em meu ser. Eis o papel do mestre. Eis um breve exemplo de formação, quando hoje ainda se discute o que é uma e outra coisas.
 
Acredito que se alguém resolver, seja repentinamente, em bela manhã de sol, após, por exemplo, uma tragédia pessoal, a perda de um ente querido, partir do ponto em que se está e com aquilo que se tem, aos poucos irá descobrindo que possui certas forças, certos dotes que, se forem bem empregados, aproximarão a pessoa de seus semelhantes e de seu próprio bem-estar presente e futuro.
 
Através dos anos, tenho observado muita gente, falado e ouvido muito e sempre volto à mesma conclusão: aqueles que borboleteiam atrás daquilo que desejam estão caçando vento: mas aqueles que utilizam o que têm e o que são, geralmente encontram-se a si mesmos.
 
Na minha formação, esta foi a lição que aprendi em 1963, com o diretor de minha escola. Hoje, a mesma lição é a de número 14 num manual de Programação Neurolinguística publicada em 2010. Nada de novo sob o sol, apenas a experiência vivida tão jovem, ainda tão jovem...

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