Em torno da literatura brasileira

Por: Sônia Machiavelli

Em 2013 tive a honra de estar em Ribeirão Preto, no palco do Pedro II, com Pedro Bandeira, um dos ficcionistas mais lidos no Brasil. Foi muito bom. No sábado passado, a convite de Adriana Silva, vice-presidente da Feira Nacional do Livro, voltei para mediar um encontro mais intimista mas não menos enriquecedor. Foi no Centro Cultural Palace, com Joaquim Maria Botelho. Crítico literário, ele preparou para os que foram ouvi-lo uma viagem que começou nos primórdios da Literatura Brasileira e percorreu estações chamadas Romantismo, Realismo, Naturalismo, Modernismo, Pós-Modernismo. 
 
Começou tecendo considerações originais sobre o papel do padre Vieira, o Imperador da Língua Portuguesa, como o chamou Fernando Pessoa: apesar do tempo e espaço brasileiros, a Bahia do século XVII, na gênese e elaboração da maioria dos Sermões, a cor local não tingiu seus textos, a não ser pela defesa do índio, e a sintaxe continuou lusa, não traduzindo as transformações linguísticas que já se operavam nos meados do século XVII. 
 
Depois discorreu sobre a mentira ou a fuga da realidade, apanágios do Romantismo, gênero importado da Europa que aqui se aclimatou de uma forma excêntrica, criando imagens de índios de pele clara e discursos cavalheirescos, como o Peri concebido por José de Alencar em O Guarani, publicado em 1857. Resgatou um romance anterior, de 1854, o delicioso Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, narrativa de estilo jornalístico e ritmo ágil, que já incorpora a linguagem das ruas, das classes mais humildes, fugindo por completo dos padrões românticos que impunham ambientes e personagens aristocráticos. Contextualizou no ano de seu lançamento, 1890, o zoomórfico O Cortiço, de Aluízio de Azevedo, autor naturalista que denuncia a exploração e as péssimas condições de vida dos moradores das estalagens e cortiços do Rio de Janeiro, preâmbulos das favelas cariocas. Então chamou à cena Rachel de Queiroz, que ao fixar a seca calamitosa do Ceará em O Quinze, construiu o caminho para o relato regionalista nordestino, que revelaria nomes como José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Jorge Amado. No sul, irrompia o gaúcho Érico Veríssimo com suas sagas enérgicas historiando o custoso processo de lutas durante a colonização. Entre os regionalismos, superando-os e abrindo novos caminhos, os dois Andrades e tudo o que derivou da Semana de Arte Moderna, em 1922. 
 
Machado de Assis e Guimarães Rosa foram colocados por Botelho acima de um patamar onde se buscava traçar o perfil da vida e do caráter brasileiros. A obra de cada um deles alça voos singulares. Ambos miraram o universal no espaço urbano ou rural em que construíram suas narrativas. Outro mantido ilhado foi Euclides da Cunha, com Os Sertões inaugurando de forma majestosa um gênero, a reportagem. Da mesma forma estanques, Murilo Rubião e J.J.Veiga, ficcionistas que o palestrante filiou ao realismo mágico, ainda que A hora dos ruminantes, do segundo, publicado em 1966, tenha sido considerada por alguns uma sátira à ditadura implantada dois anos antes. 
 
O título da palestra de Joaquim Botelho era ‘O Livro e a Leitura na Evolução da Educação Brasileira’. Assunto para múltiplas reflexões sobre como a literatura em nosso país às vezes funciona tal qual um filtro que absorve sinais evidentes de como flui a vida e se transforma a sociedade.
 
Considerando a palavra ‘livro’ como pertencente à categoria do literário, Botelho explicou que havia pretendido traçar uma linha evolutiva onde língua e literatura atuariam como componentes básicos da identidade nacional. Isso ensejou que conversássemos a respeito dos elementos constitutivos da literatura de um país, quais sejam autor, obra e leitor. 
 
Neste momento, no Brasil, temos um grande número de autores produzindo e um não menor número de títulos lançados a cada mês. Entretanto, os leitores escasseiam, segundo palavras do próprio presidente da Feira, Edgard de Castro, analisando pesquisa da associação comercial de Ribeirão Preto. No último ano caiu em 7% o número de livrarias, bancas e sebos naquela cidade. “ Isso só comprova o que a gente vê: as pessoas leem cada vez menos”, afirmou.
 
O esforço da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto é no sentido de motivar a leitura, estimular novos leitores, consolidar o hábito onde ele ainda está em formação. Acho louvável. Mas, como concluímos enquanto tomávamos um último café no final do encontro, a escola ainda detém uma força determinante junto às crianças. Há portanto necessidade de uma intenção verdadeira dessa instituição em ensinar a gostar de ler. Isso é um ato cultural, aprende-se com atividades bem pensadas, criativas, que incluam ler com o aluno, participando emocionalmente do processo. Se um professor não vê valor ou não se emociona com o livro que indicou, dificilmente arrebatará o aluno para esta aventura onde ‘histórias abrem olhos e ouvidos para entender a construção da espécie humana’, na frase iluminada de Tatiana Belinki.
 
Crítico literário
JOAQUIM MARIA BOTELHO é jornalista, tradutor, professor. E crítico literário. Como jornalista foi chefe de reportagem da Revista Manchete, no Rio de Janeiro; chefe de redação da TV Globo (atual TV Vanguarda) em São José dos Campos; diretor de jornalismo regional da TV Bandeirantes no Vale do Paraíba. Também foi diretor de redação do jornal Vale Paraibano, em São José dos Campos.
 
Coordenou a área de comunicação da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo. Lecionou na Universidade de Taubaté e na Universidade Bandeirantes. Tem especialização em Jornalismo Internacional pela University of Wisconsin, nos EUA. É mestre em Literatura e crítica literária pela PUC/ SP
 
Constam de suas publicações: Vale do Paraíba, Política e Sociedade; Gerenciamento da Carreira do Executivo Brasileiro; Redação Empresarial sem Mistérios; Imprensa, poder e crítica- sobre crítica literária; Vanusa, a vida não pode ser só isso!- biografia; Costelas de Heitor Batalha- romance; Desvalências- conto, inédito; O livro de Rovana- romance, no prelo.
 
A construção do pensamento que orientou sua palestra no sábado revela as raízes da crítica que professa, de cunho sociológico, bem nas pegadas de Antônio Cândido, de quem é amigo há décadas. Aliás, disse-me Botelho que Antônio Cândido, aos 95 anos um dos intelectuais mais respeitados do Brasil, vive só em seu apartamento nos Jardins, em São Paulo. Independente e lúcido, leva sua vida entre livros e visitas a quem recebe com cafezinho e bolachas. 
 
O nome de Joaquim Botelho é visto, muitas vezes, como integrante de júris de prêmios literários expressivos que elegem títulos de autores contemporâneos. Foi nessa condição que ele entrou em contato com a antologia de contos da francana Vanessa Maranha, Oitocentos e Sete Dias, ganhador do Prêmio Barueri de Literatura em 2013. (SM) 
 

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