A melhor viagem

Por: Cristiane Ávila Paulo

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Lúcio foi convidado a entrar num elucidativo labirinto, ao mesmo tempo alegre e sombrio. Nele, poderia seguir por várias rotas, com a opção de reabrir ou fechar definitivamente várias portas. Teria a oportunidade de olhar para si mesmo e procurar nos túneis a luz que o faria enfrentar da melhor maneira possível os obstáculos da vida, que naquele momento mostravam-se grandes e relutantes.
 
Pensou um pouco, titubeou, mas por fim resolveu arriscar-se na misteriosa jornada.
 
Devidamente advertido de que fatalmente o encontraria, começou pelo Jardim dos Medos e Limitações. Aproveitando a possibilidade de encarar antigos temores, refletiu sobre suas causas, ponderou as consequências e conseguiu sanar alguns deles. Diante de raízes extremamente problemáticas, preferiu procurar um atalho e deixar a batalha para depois.
 
Andou mais um pouco e adentrou o Portal das Escolhas e seus Frutos, onde percebeu que tudo o que lhe acontecera, de alguma forma, decorrera de suas próprias ações. Aceitou que qualquer atitude é passível de criar indisposições: uma frase mal interpretada, uma opinião sincera na hora errada, um posicionamento diante de assuntos que não lhe competem, a inflexão sobre determinados temas. Era a verdade nua e crua, e isso não queria dizer que todas as suas decisões haviam sido equivocadas.
 
Reconhecendo que muitas vezes ultrapassou a Faixa do Bom Senso na tentativa de autoproteção, constatou que a rebelião é um dos riscos para quem insiste em invadir certos aspectos da vida alheia e admitiu que não era superior o bastante para relevar tudo em silêncio.
 
Encontrou no fundo do Poço da Personalidade as características pessoais que o haviam levado ao ponto onde se encontrava. Olhou para seu reflexo na água, questionando se seria capaz de abandonar aquelas que faziam parte da sua essência, ou se elas poderiam ser facilmente respeitadas pelos outros. Percebendo que não seria feliz ao insistir em agradar a todos e tentar livrar-se de determinados estigmas, teve a coragem de agarrar-se aos defeitos (ou qualidades, quem sabe) que considerou seus pilares. Assumiu suas fraquezas sem culpa e, para sua surpresa, sentiu-se efetivamente liberto e mais forte.
 
Percorreu a Avenida dos Remorsos e desculpou-se pelos erros por ele nunca ignorados, notando que muitas vezes era o único atormentado pelas lembranças das próprias falhas. Refletiu então sobre tudo o que havia lido, compreendendo que a reforma íntima consiste no desejo e esforço de melhorar-se, mas sem a cobrança de atingir a perfeição que não é humana. Aprendeu que a raiva agride mais quem a sente, mas que talvez seja necessário expressá-la para, aos poucos, distanciar-se dela e um dia dizer adeus. 
 
Na Alameda das Amizades Adormecidas, o prazer de esbarrar nos companheiros de outrora e recordar os bons momentos vividos: peripécias da infância e adolescência, ajudas na escola, companhias em esportes e festas, experiências de faculdade, apoio e aprendizado num estágio, conversas na rádio-corredor do trabalho. Reconheceu a importância de cada pessoa que passou por sua estrada sem lamentar a partida daqueles que, como ele, tiveram que seguir seu próprio caminho. Sentou-se pensativo e percebeu então que, em vez de contar nos dedos os poucos amigos, deveria alegrar-se ao ver quantos afetos guardava na mochila da sua história. Na gaveta do esquecimento, resolveu trancar a mágoa em relação aos colegas cujas respostas havia esperado por anos, conformando-se com as inevitáveis perdas e ausências.
 
Chegando à adorável Viela dos Passatempos Esquecidos, lembrou-se de como se divertia antes e decidiu retomar atividades bobas que sempre lhe fizeram bem à alma, mas que havia deixado de lado pelas imposições da vida adulta.
 
Alcançou a saída e notou o efeito positivo da penosa jornada, gritando aos quatro ventos que não havia nada melhor do que analisar-se diante dos aborrecimentos e retirar de si o que sufoca. Estava feliz em descobrir que, para deixar o coração aberto para as benesses que a vida reservava, era necessário reavaliar o que lhe ocupava os pensamentos de forma indevida.
 
Com o espírito muito mais leve, Lúcio anunciou o fim de um ciclo e o início de uma nova aventura. E concluiu que, apesar de amedrontadora, a mais proveitosa viagem é a excursão que fazemos em nosso interior.

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