Humor clandestino

Por: Chiachiri Filho

Há 50 anos iniciava-se o regime militar brasileiro. Realmente, os eventos que se verificaram em virtude dessa data não foram comemorativos. Ninguém, em sã consciência, comemora o início de uma ditadura, de um período sem liberdade.  O que houve foram registros, lembranças, amargas lembranças dos ‘ anos de chumbo’. Porém, a fase não foi só de ‘sangue, suor e lágrimas’. Houve também risos, gargalhadas até.  O humor é terrível, irrefreável, incontrolável. 
 
O Marechal Hermes da Fonseca foi, ao seu tempo, alvo de muitas piadas. Dutra, o outro marechal presidente, não escapou às sátiras dos brasileiros. Contam que, em sua visita aos Estados Unidos da América, foi recebido pelo Presidente Truman com o tradicional:
 
- How do you do , Dutra?
 
Sempre meio desconfiado, o Presidente Dutra respondeu:
 
- How tru you tru , Truman?
 
Na mesma viagem aos EUA, ao visitar uma galeria dos mais importantes generais norte-americanos, Dutra observou:
 
- Estão faltando nesta galeria dois importantes generais norte –americanos  muito conhecidos no Brasil.
 
Surpreso e preocupado com a observação do Presidente, o cicerone foi logo indagando:
 
-Quais são eles , Excelência?
 
 E o Presidente Eurico Gaspar Dutra, respondeu sem pestanejar:
 
-É o General Eletric e o General Motors!!!
 
Mas foi nos  ‘anos de chumbo’ que o humor clandestino correu livre e solto. Quando o General Costa e Silva foi visitar os Estados Unidos, ao ver uma faixa com os dizeres “Well come Costa e Silva” , ele ficou paralisado à porta do avião, chamou o seu ajudante de ordens e disse peremptoriamente:
 
-Eu vou descer, mas, primeiro, prendam esse tal de Well.
 
Quando o General Ernesto Geisel, de confissão luterana, assumiu a Presidência da República, a primeira coisa que se ouviu foi:
 
-Pela primeira vez o Brasil será dirigido  pelo filho de um pastor  alemão.
 
As anedotas do período ditatorial foram inúmeras. Porém, para terminar vou contar aquela em que um militar estava à procura de um jantar de Marechal. Havia entrado em vários restaurantes e nenhum sabia que prato era aquele. Cansado, nervoso e irado ele entrou  num último restaurante e gritou: 
 
-Eu quero comida de marechal!
 
O garçom, tremendo de medo, baixou a cabeça e foi perguntando para um e para outro que comida era aquela. Ao chegar  junto ao cozinheiro, este o tranqüilizou  e  dentro de pouco tempo pôs-lhe às mãos uma bandeja com uma lagosta e uma garrafa de uísque Passport. Ao depositar a bandeja na mesa do General, este , de um salto, pôs-se de pé, fez uma continência e perguntou ao garçom:
 
-Foi você que descobriu que esta é a verdadeira comida de um Marechal?
 
O garçom, com muita humildade, disse ter sido o chefe de cozinha o autor da façanha.
 
O general, satisfeito, mandou chamar o chefe de cozinha e perguntou-lhe  como ele sabia que a lagosta e o Passport eram   comida de   Marechal. O cozinheiro, com muita tranquilidade, declarou:
 
 -É muito simples, general. A lagosta porque tem casca grossa, merda na cabeça, só anda para trás e vive nas costas do Brasil. E o uísque Passport , mais simples ainda: é verdão e quadrado!

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