De primeiro (8)

Por: Luiz Cruz de Oliveira

De primeiro, a roupa, o sapato distinguiam mais o pobre do rico, do remediado. A vestimenta restringia a presença do pobre até em alguns locais de diversão. Exemplo disso foi a norma que imperou no Cine São Luiz.
 
Desde sua inauguração, e por anos, não se podia frequentar aquela casa em manga de camisa. O paletó era mais importante que o bilhete a ser entregue ao porteiro.
 
Quando foi exibido o filme O fim do mundo, cujo enredo era o dilúvio universal, segundo o relato bíblico, quis ver na tela a história tantas vezes contada por minha mãe. Não assisti ao filme, pois não consegui um paletó emprestado com amigos e parentes. Estávamos todos irmanados na penúria.
 
A Associação dos Empregados no Comércio – AEC – era local restrito à burguesia francana. Lá se realizavam os bailes carnavalescos, as tardes e noites dançantes, lá se recebiam as orquestras famosas, lá reinou por anos a orquestra Laércio de Franca.
 
Mas uma vez eu entrei na AEC. Foi na minha festa de formatura.
 
De primeiro, o aluno terminava a quarta série do curso ginasial, atual ensino médio, recebia o diploma de bacharel, em reunião solene. A turma de que eu fazia parte mereceu, sei lá por que, festa na AEC. Tinha de levar madrinha, então a irmã Shirley me acompanhou. 
 
Após a entrega dos diplomas, após meia dúzia de discursos inflamados, os bacharéis foram intimados a dançar a valsa que abriria o baile. Ninguém podia desobedecer ao diretor Júlio César D’Elia, então, pela primeira e última vez na vida, ensaiei passos pra lá e pra cá, obediente às orientações da mana.
 
Tiraram fotografia. A família guarda retrato ainda hoje.
 
A COLEGIAL era outro local proibido ao chamado povão. O estabelecimento ficava ao lado  do posto de gasolina, instalado na esquina da Rua Major Claudiano, onde hoje funciona a agência central do Banco do Brasil. Ali se bebia, ali se lanchava, ali se encontravam  famílias,  casais de namorados. 
 
Lá estive também uma única vez. Foi quando fui aprovado no vestibular da Faculdade de Direito. Deram-nos o tradicional trote, cortaram meu cabelo, pintaram meu rosto, sujaram minha roupa de tinta. Levaram alguns calouros lá pra Colegial, deram- nos cerveja.
 
Certamente o Diretório Acadêmico pagou a conta.
 
Como do baile, desse momento há também uma foto. Ambas registram pálida – e apropriadamente – instantes apenas. Minha vida precisa ser garimpada muito além daquelas imagens e dos olhos assustados que elas registram.
 
De primeiro era assim. Mas o tempo é professor.
 
Ele ensinou aos ricos que eles não eram tão ricos. Ele ensinou aos pobres que eles não eram tão pobres.
 
O tempo continua ensinando.
 
Ensina, às vezes a um alto custo, as distâncias a se encolherem.
 
Quiçá cada vez mais.

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