Viver: verbo infinitivo.

Por: Maria Luiza Salomão

SOMOS vividos por muitas histórias. Somos o personagem principal, e falamos senhoramente - eu. Somos observadores, testemunhas de fatos que acontecem a “ele”, “ela”. Ouvimos histórias que nos contam, sem vermos, ou participarmos delas, do outro suposto, incógnito. Em outras, ainda, imaginamos - uma viagem ao interior de um mundo de desejos, de fantasias: deliramos? 
 
Às vezes me pergunto, qual é a mais significativa história? A que vivi, como um eu? A que me foi dado observar? A que me contaram? Tudo me soa ficcional. Há alguma que não seja ficcional? 
 
- Agora eu era uma mulher de 92 anos, a pesar os acontecimentos da vida. Ontem mesmo, eu era uma mulher de menos de 26 anos, a chorar porque uma colega zombava de mim. Na segunda-feira, a descobrir a beleza do verbo no infinitivo conjugando-o no modo pessoal. Hoje, eu era o beija-flor beijando o beijo amarelo, no meu quintal (eu o vejo da janela), um bebê a engatinhar na grama. 
 
- Agora, na alma, eu era o infinito: com todas as idades. Eu era uma mulher de 101 anos, ao sol pleno, a divagar: ser nada e ser tudo. 
 
- Agora, eu era a mulher de 30 anos, a cantar e dançar, feliz e feminina: muito trabalho e pouco dinheiro. Ser amada, amar, meu momento, primeiramente por mim e depois por alguém de personalidade oposta à minha: espiritualizado, forte e másculo. O Brasil a caminhar para a sonhada democracia e eu a sonhar filhos. A amiga, xará, que conheci na Legião Brasileira da Boa Vontade (LBA), a me surpreender pelo seu bonito trabalho que me fez desaprender preconceitos. A xará me dá uma Clarice Lispector, aquela do Uma Aprendizagem: o livro dos prazeres, ela sem um Ulisses, apesar de linda, culta, doce e serena (agora tem o seu Ulisses); a viver muito bem sozinha, bem acompanhada de arte (irmã pintora renomada) e de livros. 
 
- Agora, o Ribeirão Preto não tem shoppings, e o melhor a fazer era conversar no barzinho, na Lagoinha, com amigos. 
 
- Agora, era a menina de 12 anos, a bailar em Ituverava, glamoroso baile, o coração a sair do peito. Minha prima, uma princesa: vestidos bordados em Uberaba, o armário a guardar mais roupas do que vejo hoje em algumas lojas; e seu primeiro namorado era velho e feio. Essa prima não foi muito feliz, e fico por entender o que calhou de dar errado. 
 
- Agora, era uma garota desgarrada de 22 anos: sentada na sarjeta, na Rua do Arouche, em São Paulo, a pensar se mereço sentir tantas dores nos rins, a sofrer ignorâncias não filtradas. 
 
Qual a melhor história, ao conjugar infinitivo em tantos tempos? Idades bem sonhadas: conjugando o infinito hoje, a conter o ontem e o amanhã. 
 

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