Matitaperê

Por: Everton de Paula

E vinham então, na ronda feiticeiradas divindades silvestres, a matitaperera,o curupira, o jurapari, o anhangá que desnorteiame perdem os incautos, quando não lhes bebemo sangue vampirescamente.
Raimundo Morais
 
 
 
É preciso que o último raio de sol seja engolido.
 
Pronto, agora sim.
 
Na escuridão úmida e morna das desabitadas florestas brasileiras pressente-se um frêmito nervoso, um hálito podre, um vozerio fantástico que vai crescendo, avolumando-se, lembrando começo de reunião de mil bocas bestiais. O ruído vem das matas, envolto pela neblina ferida de lua cheia...
 
As samambaias e os musgos, amedrontados, parecem agarrar-se ainda mais forte nos vetustos troncos das árvores protetoras.
 
A passarada, de coraçãozinho no bico, assustados os coitadinhos, procura os galhos altos para se aninharem em grupo, no mais longe do solo. É por isso que em noite de lua cheia, os ipês, os paus d’arco, as embaúbas, as quaresmeiras, as cássias ficam gordas, grávidas de tiês-sangue, arapongas, tangarás, bem-te-vis, tico-ticos, joões-congo, mainás, pardais, bicos-de-lacre...
 
Os chilreios vão ficando tímidos... Como sono... Piando à míngua... Até o esgotamento total...
 
Agora o silêncio, no mais profundo interior da mata escura, é entrecortado apenas pelo uh-uh da coruja-branca e pelo cricrido fino e metálico dos grilos insones.
 
Olhos inquietos de suçuarana, brilhando no preto da noite, reflete o ai-ai meu deus da bicharada escondida.
 
É quando a folhagem morta do chão, macia e desbotada como tapete de castelo milenar, recebe os primeiros passos dos seres sobrenaturais que vão surgindo pouco a pouco, vindos das voçorocas, das nascentes, das grutas, dos porões abandonados, das senzalas vazias, dos ocos dos sococós, dos tremedais pestilentos que tremem de susto e medo. Os seres bestiais reúnem-se numa clareira em assombradora egrégora.
 
Gritos, apupos, assobios finíssimos, contorções impossíveis, caretas horrendas... É a perversa dança dos demônios que se reveem. 
 
Depois, em vozes abafadas e olhares desconfiados, traçam planos, sustos, assombramentos... Aí então disparam aos gritos, aos guinchos, às gargalhices agudíssimas que contrastam com a rouquice do lobisomem. Perdem-se nas matas, metem-se pelas veredas, dobram os horizontes, esparramam-se por todo o interior... E vão assustar as criancinhas brasileiras!
 
O fedorento Quibungo, que veio da África pra morar no fundo do quintal do Brasil, metade-gente-metade-animal, bicho de cabeça enorme, ronda a casa do menino malcriado, e canta medonho: De quem é esta casa, Anê, como gérê, como gérê, como erá...
 
Quibungo tem buraco no meio das costas que se abre quando ele abaixa a cabeça. Quibungo come os meninos abaixando a cabeça: o buraco no meio das costas se abre, a criança escorrega por ele e... Babau! Está no papo do bicho.
 
Enquanto isso o Cabeleira, fantasma lá de Pernambuco, espreita pela fresta do telhado: Fecha a porta, Rosa, Cabeleira ê-vem, pegando mulheres, meninos também! E o menino tenta dormir com um olho aberto e outro fechado, engolindo choro e mal criações.
 
O caipora, caboclinho encantado montado num porco-do-mato, vem trazer azarão pras gentes do lugar. A mula-sem-cabeça corre desabaladamente tilintando guizos, amedrontando almas. O boitatá queima os brinquedos de pano e pau esquecidos no terreiro. A mãe-d’água encanta os incautos caçadores de rãs... O papa-figo lambuza-se com fígado de criancinha...
 
- Que é isso no chão da roça, maninha? Pé de bode tresvolteado pra trás?
 
- N’é não, maninho, é pegada de curupira que mora em curuperê. Te esconde, que é índio mau.
 
Lua cheia, florestas e clareiras, uivada de lobisomem envolvendo todo o vale sertanejo, gnomos subterrâneos surdindo do escuro das tocas... 
 
Cuca, bicho-papão, geniozinhos malfazejos comprazendo-se em transformar a vidinha dos meninos num verdadeiro inferno.
 
Existem só duas coisas no mundo que espantam esse bando insuportável de demônios: os anjos-da-guarda das crianças e o Sol, inimigo mortal dos filhos das trevas.
 
É preciso que a última sombra seja engolida pelos raios luminosos do Sol.
 
Pronto. Agora sim.
 
Manhã cristalina, manhã boa, de relva orvalhada, trazendo nos ares o perfume da raiz umedecida, acordando a passarada, empurrando com a espada de seus raios todos aqueles seres sobrenaturais para os esconderijos de origem. Nem unzinho restou pra assustar pessoinha alguma.
 
- Mas que assobio é esse que vem da mata, maninha?
 
- Psiu... Espera... Caluda! Ih, é o saci, maninho. Esse não dorme nem foge do Sol. Mas tenha medo não, ele não é perigoso. Gosta mesmo é de fazer arte, sem maldadezinha alguma.
 
- E o que é que ele faz, maninha?
 
- Ah, nem te conto, meu docinho, que ele é estripulia só! Entorna latão de leite em porteira de fazenda, apaga o fogo que coze teu feijãozinho, joga pedra no telhado, põe o dedo no melado, tira doce da panela, taca brasa no cachorro, sobe em cima da paineira, bota fogo na invernada, voa num redemoinho, bate lata a tarde inteira, assobia escondidinho, faz xixi no galinheiro, porcaria no terreiro e espanta a galinhola, e assusta a molecada, corre-corre atrás da onça, tosse-tosse com a fumaça do cachimbo fedorento, mas ninguém vê ele não, escorrega no açude, voa longe o seu capuz... Òh!
 
- Que foi, ‘dinha?
 
- Shhh... Olha lá, com cuidado: o saci perdeu o capuz vermelho. E quando perde o capuz vermelho o saci fica parado, mudo, que nem estátua, até que outro sacizinho vai lá e recoloca o capuz no lugar...
 
Eu queria tanto esses demônios de volta... Ah, como eu queria!

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