Eu cósmico

Por: Ronaldo Silva

Era uma tarde de outono.
Eu simplesmente caminhava
Por uma estrada poeirenta.
 
Eu inteiro: cabelos, boca,
narinas, orelhas e intestinos.
Caminhava calado, posto que,
de companhias humanas ia desprovido.
 
Nada pretendia:
nem rumo, nem encontro.
Somente caminhava, perpassado de natureza.
 
Pássaros, formigas, árvores...
Imaginei que tudo era eu movendo passos,
enquanto meu coração bombeava sangue.
 
A brisa, ora fria ora morna, 
excitava-me os pelos dos braços.
O sol envergonhado de pré-inverno
quase aquecia minha nuca desnuda.
 
Eu não sentia sede, não tinha fome,
nem vontade de piscar.
 
Meu todo era leve, quase etéreo.
E era só eu, mesmo sendo 
aquela paisagem imensa uma parte de mim.
(ou eu uma parte ínfima dela!)
 
Não havia desejo de sorrir,
tampouco prenúncio de pranto.
Se já não me inundava o amor,
também não me assaltava impulso de ódio.
 
Tão somente importava caminhar,
meu despretensioso caminhar em direção ao todo,
sempre mais para dentro de mim.
 
Os braços balançavam
completamente soltos e vadios,
descansados de algo que ficara
muitos quilômetros atrás.
 
Roupas de um algodão puríssimo cobriam-me.
Revestindo os pés, sandálias confortáveis.
Eu prosseguia ereto.
Decidido, embora sem pressa ou ansiedade.
Rumo a um horizonte que se alargava sempre.
 
Segui assim por horas, dias, meses, anos.
Até que me senti abraçado por uma luz indizível.
 
E essa luz também era eu, compreendi.
(ou eu era ela!?)
Era tudo, numa comunhão cósmica eterna.
 
 
Ronaldo Silva, vendedor,  universitário

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