Menina?

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Falta pouco para fazer cem anos que sou freguês e amigo do Régis, dono da padaria Pão Nosso.
 
Tudo começou quando me tornei vizinho de seu estabelecimento e, desde então, muitos funcionários passaram por lá. Quase todos se foram para outros balcões, para outras atividades. Alguns morreram, poucos permanecem misturados a móveis e utensílios. Enquanto isso, eu e o Régis insistimos teimosamente: ele vendendo, eu comprando.
 
O tempo amenizou, cada vez mais, a distância entre balconistas e freguês. Por exemplo, quando a Lucinéia e o Hugo iam-se casar, ela aproveitava a fila enorme, gritava-me insultos:
 
- Por que você não quer ser meu padrinho de casamento?
 
Eu ficava consternado, mas fazia cara de alegre, respondia que fora traído, que ela me trocara pelo Hugo.
 
Há semanas nasceu o primogênito do casal, e as balconistas começaram a me infernizar:
 
- Já levou presente para a filhinha da Lucinéia?
 
Acho que fizeram mutirão e se revezavam. Na entrada, a cobrança vinha da Cátia. Na saída, vinha da Karina. No dia seguinte, vinha da Leia e da Luciana. No outro, vinha da Lia e da Juliana. Quando eu chegava ao caixa, ouvia sistematicamente da goianinha Nerici:
 
-Já visitou a menininha da Lu?
 
Certo dia, a Rosa interrompeu seu trabalho de reposição de mercadorias, entregou-me papelzinho com endereço e acrescentou:
 
- Essa rua passa atrás da igreja... Achar o bairro Paineiras você consegue, não? Vê se leva um vestidinho bem bonito pra menina.
 
 Não tive jeito. Pedi ajuda à professora Regina, ela me acompanhou à loja de roupas infantis, escolheu uma peça, acompanhou-me à casa do Hugo e da Lucineia.
 
O taxista conhecia o barro, localizou a igreja, localizou a rua, chegamos, fomos alegremente recepcionados pelo casal e pela sogra da Lucineia que aconchegava a criança no colo.
 
A Regina entregou o presente, a mãe da criança abriu o embrulho , e três rostos consternados e seis olhos arregalados responderam à indagação de minha acompanhante.
 
- Qual o nome da menininha?
 
- Juan... é menino.
 
Na volta, a Regina só não me matou porque haveria o testemunho do taxista. Eu me encolhi no banco do carro, voltei mastigando raiva. Ensimesmado, vinha pensando numa maneira de enforcar a Rosa, de enforcar todas as funcionárias do Régis.
 
O bairro Paineiras fica longe, muito longe. A demora pra chegar foi útil, acalmou-me. Pensei, pensei muito e fiz juramento:
 
- Uma coisa dessas só acontece comigo. Só porque sou tímido e meio bobo, todo mundo judia de mim. Não vou comer mais pão, enquanto o Régis não mandar aquela mulherada embora... Não compro mais nada lá...Não compro...
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 

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