O pecado da crase

Por: Everton de Paula

Quem vive constantemente a situação de precisar escrever correto, sabe que nada é mais criticado num texto do que sua ortografia. Ai daquele que, por descuido ou desconhecimento, perpetra batatadas ortográficas! O infeliz fica estigmatizado, como se tivesse cometido o mais grave dos pecados linguísticos. 
 
Felizmente, nos computadores os chamados corretores ortográficos resolvem quase todas as questões de se grafarem com um mínimo de limpeza palavras do vocabulário comum. Mas vai só até aí a serventia desses corretores. Problemas bem mais significativos na técnica de escrever, como fazer a concordância do verbo com o sujeito, do adjetivo com o substantivo, ou ainda casos mais complicados de regência, de colocação das palavras a isso o corretor não dá soluções de boa qualidade. Quando uma frase sua aparece grifada em verde, é sinal de que alguém não gostou dela e até lhe oferece de graça um palpite (basta clicar o lado direito do mouse), nem sempre digno de acatamento.
 
Também o corretor não se manifesta quando se trata do uso, ou do não, do acento grave (‘), indicador da crase.
 
Pelas vigentes regras de ortografia, só se emprega tal acento (‘) para marcar na escrita a fusão de dois sons, quase sempre a preposição a com o artigo feminino a. Ao invés de escrever-se “Vou a a cidade”, grafa-se “Vou à cidade”, sem que precise haver perceptível mudança de pronúncia entre a e à.
 
Fora desse emprego muito comum do acento de crase, ele atualmente só tem cabimento quando a preposição a se funde com os demonstrativos aquele(s), aquela(s), aquilo. Assim, escreve-se Refiro-me àquele rapaz Esta atitude é contrária àquilo que pensamos Jamais voltarei àquela casa.
 
Apesar de tudo poder parecer muito simples, na verdade o correto emprego do sinal de crase se apresenta para a grande maioria das pessoas como uma das mais insidiosas armadilhas da língua portuguesa, a ponto de o escritor e humorista Millôr Fernandes haver cunhado frase muito difundida: “A crase não foi inventada para humilhar ninguém. Mas que humilha, isso humilha”.
 
O que se vem errando no emprego do acento grave chama a atenção e até estimula a divulgar um conselho impensável em outros tempos: se você estiver na dúvida entre crasear e não crasear, não craseie. O efeito é menos comprometedor; além do mais, você, não craseando, pode cair num dos não poucos casos de emprego facultativo da crase, ou seja, você não terá como errar. Dou alguns exemplos de frases igualmente certas, embora algumas sejam de uso antiquado: Foi à Itália Foi a Itália; Entregou a carta à Maria ou a Maria; Voltarei à minha terra ou a minha terra.
 
Conselho fundamental: não craseie antes de verbos e antes de substantivos masculinos. Assim estará evitando os mais comuns dos erros de hoje no caso de emprego da crase. Os exemplos que darei abaixo estão todos certos, apesar dos muitos empregos em sentido contrário encontráveis em paredes, tabuletas, cartazes, volantes de publicidade:
 
- Fiz um favor a ele
 
- Dê o recado a Paulo
 
- Preços a partir de dez reais
 
- Ir a São Paulo
 
- Viagem a Pernambuco
 
- Refeições a qualquer hora
 
- Escrever a lápis
 
- Acender uma vela a Nossa Senhora
 
- Ação de graças a Nosso Senhor
 
- Crianças de 8 a 12 anos
 
 -Isso interessa a todos
 
-Aprender a ler
 
-Não perdoar a ninguém
 
-Começar a trabalhar cedo
 
- Proibido a menores de 14 anos...
 
Nem tudo é lógico no emprego da crase. Muitas vezes o acento ajuda a dar clareza a certas frases, como: Matar o inimigo à fome; fechar a porta à chave; à medida que o tempo passa; andar à toa...
 
A pergunta mais comum que fazem é:
 
- Por que já as gerações mais jovens não sabem nada disso?
 
Antes de tudo, acho que a generalização não corresponde à verdade. Sob muitos aspectos os bons alunos de hoje são muito melhores do que os daquelas escolas tão saudosamente reverenciadas. Os professores são mais bem preparados, as instalações incomparavelmente melhores, as bibliotecas mais fartas, o material didático de primeira ordem. Isso sem se falar de outros recursos extraescolares, como os audiovisuais e o acesso cada vez mais generalizado à Internet, uma inesgotável fonte de consulta em qualquer assunto.
 
- Então por que os alunos não sabem certas coisas que deveriam saber?
 
Porque as pessoas todas, não só os alunos, estão saturadas de informações que se acumulam na memória sem um eficiente processo de seleção.
 
A própria maneira de se tratarem os fatos da linguagem mudou muito através dos tempos. A tendência atual, corretíssima, é de se ensinar a gramática pela língua, e não a língua pela gramática. Ou seja, dever-se-ia chegar ao adequado conhecimento do uso do acento de crase, por exemplo, não pelo arrolamento de certas regras, mas pela observação sistemática de seu emprego pelos bons escritores ou pelos bons jornalistas, bons repórteres, etc... O difícil é encontrá-los à mão e dispor-se a lê-los!
 
E aí se chega ao nó da questão: a aquisição de bons costumes em matéria de linguagem oral ou escrita se dá através da assimilação de exemplos adequados. Numa sociedade em que as pessoas falem com simplicidade e correção, os mais novos não adquirirão o que os ortodoxos de outros tempos chamavam de hábitos linguísticos grosseiros.
 
A audiência de bons programas de televisão e de rádio, assim como o acesso a livros, revistas e jornais contribuem para a internalização de modelos de frases culturalmente aceitáveis. 
 
De igual modo, os ruins modelos disponíveis nos meios de comunicação muito contribuem para o empobrecimento da expressão escrita e oral.
 
Porque não tenhamos dúvidas: apesar do que se desculpa e até se prega em favor do emprego desinibido de linguagens não policiadas, falar e escrever com a esperável correção permanecem como dos mais importantes fatores de aceitação e de ascensão social.
 
Tudo que se diga e defenda em sentido contrário servirá, quando muito, para justificar tentadoras e perigosas exceções.
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos

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