Quem é um “invicto”?

Por: Maria Luiza Salomão

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A ONU instituiu o dia 18 de julho, o “Dia Internacional Nelson Mandela”, dia de seu aniversário, como comemoração da luta pela democracia, liberdade e justiça. Em 1993, Mandela recebeu o Nobel da Paz. 
 
Preso por 27 anos e liberto em 1990 da prisão Robben Island, hoje patrimônio da humanidade, Mandela disse ter tido muito tempo para estudar o inimigo, os poderosos que dominavam a África do Sul, e sustentavam o apartheid, a violenta segregação étnica entre africânderes (os brancos) e a maioria negra, da qual Mandela fazia parte. Madiba, nome de seu clã, ocupava um lugar de nobreza tribal em um lugarejo, e renunciou, aos 23 anos, para assumir a luta política em Johanesburg, como líder da resistência não-violenta. Mandela disse, sobre a sua fuga ao destino tribal: 
 
‘... seria um chefe muito respeitado, sabe? Teria uma barriga bem grande, muitas vacas e carneiros”.
 
Foi o prisioneiro mais famoso do mundo, sendo libertado por pressão internacional. No seu julgamento em 1962 falou por quatro horas, terminando assim: ‘Durante a minha vida, dediquei-me a essa luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca, lutei contra a dominação negra. Acalentei o ideal de uma sociedade livre e democrática na qual as pessoas vivam juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e realizar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer’ 
 
Quando assumiu a presidência como o primeiro negro da África do Sul, no período 1994/1999, preocupou-se com a integração étnica do povo. Uma atitude sábia e corajosa, própria de um líder.
 
O time de rugby da África do Sul pertencia aos africânderes, o Springbok, e todos os negros viam - nas cores do time e no próprio esporte - o símbolo do apartheid. A segregação racial, criada pelo Partido Nacional no poder desde 1948, subjugou e dominou os não-europeus, com uma ação jurídica. Em 1963, quando Mandela foi preso, dos 17 milhões de habitantes 20% eram brancos e 68,3% eram negros; o restante da população se distribuía entre mestiços e asiáticos.
 
Mandela, na prisão, torcia sempre pelo time adversário do Springbok, como todos os negros. No filme, o grande líder quis começar o seu trabalho de perdão e reconciliação entre as etnias apoiando o time de rugby, tornando-o um time nacional. Out-doors em escolinhas de futebol (em bairros periféricos de várias cidades) anunciavam: “Um time, uma nação”.
 
Clint Eastwood foi genial em querer eternizar o gesto do então recém empossado presidente Mandela para fazer um filme sensível, quase uma epopeia, tendo o esporte, o rugby, como principal protagonista na ponte a ser construída no país arruinado por preconceitos e violências, depois de uma guerra civil.
 
O título do filme é o mesmo do poema que sustentou o ânimo de Mandela na prisão - Invictus. O autor do poema, William Ernst Henley (1849-1903), teve uma vida bastante difícil, tuberculose aos 12 anos, e a perna amputada aos 16 anos. Casou-se e sua filha morreu de meningite aos 5 anos. O seu poema, de 1875, lembra os do americano Walt Whitman, e conclama resistência, coragem, força e fé. A palavra Invictus, mesmo significado em português, é “o que nunca foi vencido; o invencível.” 
 
Mandela oferece o poema ao então capitão do time Springbok, François Pienaar (Matt Damon, que engordou 14 kg para o papel). O time enfrentou o melhor time de rugby do mundo (da Austrália) na Copa do Mundo sediada na África do Sul, em 1995. Dois versos finais do poema são sugestivos: “Eu sou o senhor de meu destino/Eu sou o capitão de minha alma.” 
 
Mandela demonstra força quando diz aos correligionários “estudei e aprendi a língua, a poesia, dos nossos inimigos” (africânderes); ao não responder ao ferro com ferro, ao fogo com fogo; quando reconhece que precisa de todos - africânderes e a população negra - unidos sob um mesmo hino e uma mesma bandeira. Madiba tem coragem ao não sucumbir ao desejo de vingança e retaliação dos negros, e mostra integridade surpreendendo os “inimigos africânderes”. 
 
Mandela diz: “a África do Sul tem fome de grandeza”. Fome acende o espírito invicto, invencível. Grandeza na fé e na coragem para perdoar, que abrem infinitos caminhos, nas insuspeitáveis metamorfoses que provocam. 
 
 
O DIRETOR
 
CLINT EASTWOOD
 
Após cursar a Oakland Technical High School, trabalhou como atendente em posto de gasolina, como bombeiro, instrutor de natação, e tocou piano em um bar em Oakland. Hoje, com 84 anos, ocupa o segundo lugar no ranking dos cem maiores astros de todos os tempos. Tem 59 anos de carreira como ator, diretor, produtor de cinema. Como ator fez 42 filmes, 31 como diretor e 24 como produtor. Compõe músicas; é fã de jazz; e foi prefeito de uma pequena cidade da Califórnia, Carmel, 1984-1986. 
 
Dirigiu Bird (sobre Charlie Parker), 1988; Os imperdoáveis, 1992, Oscar de Melhor Diretor, e de Melhor Filme; As pontes de Madison, 1994 (ator e diretor), analisado no Cinema & Psicanálise; Menina de Ouro, 2004 (ator e diretor), Oscar para Hillary Swank e Morgan Freeman, Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor; Cartas de Iwo Jima, 2006; Gran Torino, 2008; dirigiu e produziu J. Edgar, 2011. Recentemente atuou em Curvas da vida, 2012, como ator. São alguns filmes, apenas, em destaque, mas há inúmeros hits no seu currículo, além dos faroestes à italiana, com Sergio Leoni, em que atuou como o solitário, duro justiceiro, alcançando a fama rapidamente. 
 
Invictus, 2009, teve duas indicações para o Oscar, para Matt Damon (o capitão do time de rugby) e para Morgan Freeman, no papel de Mandela. 
 
Um currículo notável, desse artista pleno, multidotado, que permanece em cena. 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)

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