O bêbado e o defunto

Por: Chiachiri Filho

Em qualquer cidade de nosso interior  há sempre um cemitério e, nas suas proximidades, um bar onde os que continuam vivendo  podem saciar sua sede e matar a sua fome. Dentro do bar, há também, invariavelmente, um ou vários bêbados. 
 
A história que vou contar  aconteceu, segundo dizem, numa das cidades circunvizinhas a Franca. 
 
Zé do Gole, bêbado reconhecido, afamado e contumaz,  vivia tomando umas e outras num barzinho de esquina, bem próximo do cemitério. Morava ali por perto. Mas o bar era o seu ancoradouro, o seu escritório, o seu parque de diversões, enfim, de fato, a sua moradia.   Sentava-se numa posição estratégica de tal modo que tinha uma visão imediata e ampla de todos os cortejos fúnebres que se dirigiam à necrópole municipal. 
 
Numa cidade pequena, os funerais são escassos. Às vezes passam-se meses sem nenhum enterro. Porém, Zé do Gole, sempre muito atento, não desviava a atenção do logradouro que dava acesso ao cemitério.  O seu prazer, ou melhor, a sua missão era acompanhar o defunto, segurando na alça de seu caixão, até a sepultura.  Nessa missão, ele não perdia tempo e nem defunto. Todos, todos sem exceção, os enterros da cidade eram acompanhados pelo Zé do Gole que ainda fazia  questão de segurar na alça  da urna funerária. 
 
Certa feita, após um longo período sem nenhum enterro, começou a passar um cortejo bem em frente ao bar onde o Zé ficava plantado e de prontidão.  Mais do que depressa, ele virou o seu copo de cachaça, tirou o chapéu, colocou - o em cima da mesa, sacudiu o corpo e, balançando, foi  se integrar ao cortejo. Chegou bem perto da alça do caixão e, ao tentar segurá-la, foi afastado por uma cotovelada. Tropeçando nas pernas, tentou mais uma e mais outra alça e foi repelido por mais alguns empurrões e cotoveladas.  Frustrado, suado, cambaleante e desacorçoado, Zé do Gole ficou estático, deu uma certa distância ao cortejo  e gritou:
 
- Hei, Heeeiii!
 
Quando os acompanhantes do defunto olharam para trás, Zé do Gole  não teve dúvidas e soltou:
 
- Tão com muito luxo, tão com muito luxo, né mesmo? Pois então enfia esse defunto no  ...
 
Retornou ao bar, entornou mais um copo de pinga e passou o resto do dia cochilando. 
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 
 

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