De primeiro (9)

Por: Luiz Cruz de Oliveira

De primeiro, o pai me ensinava que camelô e mascate era tudo igual.
 
O mascate viajava a cavalo, ia de sítio em sítio, de colônia em colônia, com a mala repleta de  bugigangas, de pequenos utensílios, de lenços coloridos. Mostrava o tecido, jurava que o pano era muito bom, depois as calças encolhiam.
 
O camelô era mais esperto, não saía da cidade, estava sempre com a roupa limpinha. Era falador, jurava que o vidrinho de remédio acabaria com o calo, com todas as dores. E a força do calo, ajudado pelo couro duro da botina, era mais forte que as juras, mais forte que a lâmina do canivete, e continuava infernizando a vida do roceiro.
 
Apesar disso, alguns mascastes cativavam a clientela que se lhe tornava fiel e aguardava ansiosa seu retorno.Alguns camelôs granjearam a estima do público, tornaram-se pessoas muito conhecidas e estimadas nas comunidades onde operavam.
 
Nas décadas de cinqüenta e de sessenta, Franca abrigou um famoso camelô. Chamava-se Zé Biloca.
 
Homem alto para a época, não era extrovertido. Compensava a ausência da verborragia com recursos diferentes dos da maioria dos camelôs. Chegava ali na Praça Nove de Julho, abria uma mala, dela saía uma cobra, uma jiboia, que ficava tomando sol ali ao lado. Abria outra mala, esparramava suas mercadorias. Começava a falar em voz alta.
 
- A cobra vai fumar... Essa é a Catarina... É uma cobra ensinada, ela sabe fumar...A cobra vai fumar...
 
Enquanto a jiboia tomava sol tranquilamente, Zé Biloca fazia mágicas com argolas, com lenços, com cartas de baralho. Essa era sua especialidade, e ele até possuía certa habilidade com as mãos, pois conseguia impressionar as pessoas que iam formando um círculo ao redor do vendedor, um olho na cobra, outro nas mágicas. Quando o número de pessoas era grande, apregoava e vendia seus produtos: remédio para calo, canivete, lenços, perfumes, talco perfumado, ferramentas, veneno para matar formiga...
 
Os viajantes que chegavam, que partiam, quase todos conheciam o Zé Biloca e quase sempre lhe compravam algo. Assim, o homem amealhou bens, chegou a possuir caminhão com o qual viajava para as cidades pequenas que circundam Franca, ganhou fama na região.
 
Quando a idade reduziu a agilidade de suas mãos e a força de sua voz, montou pequena barraca na mesma praça onde sempre operara. Vendia, então, somente ferramentas.
 
Os camelôs de minha infância escassearam, sumiram.
 
Foram substituídos, porém.
 
As cidades, cada vez mais, são invadidas por vendedores que se dizem camelôs. Chegam, armam barracas que proliferam ao longo de vias, em praças, tornando o ambiente semelhante aos comércios persas que a mídia nos mostra.
 
Em Franca, as barracas alteraram a face da Praça Nove de Julho e do espaço que já foi chamado de Largo da Misericórdia, de Largo do Hotel Francano, de Praça Dom Pedro II e, hoje, de Shoping do Itaú.
 
Afora lembranças, muito pouco ficou do tempo de nossos mascates e de nossos camelôs. 
 
Rita Sueli Silveira Lima, filha do Zé Biloca, conserva humilde barraca na Praça Nove de Julho, onde seu pai fez História. 
 
Vende ferramentas.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 

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