Blindados

Por: Janaina Leão

É o outono, todo ano tem. Todo ano aquela angústia que vem com um desbunde, a impotência de manter-se seco. Lea sentia-se úmida, o bolor das paredes fazia sua pele arrepiar e sentia-se mofada por dentro e por fora. O cumprir de anos se aproximava. Comemorar mais um cair de folhas, de galhos cada dia mais apodrecidos pelos ciclos naturais da vida. Olhava-se no espelho e pensava que as pessoas ficavam mais bonitas tristes... A beleza deveria ter um caso com a crise – suspeitava ao se admirar chorando.
 
Havia tempos Lea só desejava ter o poder de desligar o celular, e desconectar-se de todas aquelas redes em que emaranhada sentia-se enforcada/sufocada até o pescoço. Isso é escravidão, pensava. Não saía de casa. Ela era toda tela, mergulhada na vida que suportava para bater a meta dos nove meses imóveis. Gravidez de alto risco. Lea era frágil como estrela do mar fora d’água.
 
Ricardo chegava a tempo de vê-la acordada. Sorte dele, pois amanhecia selvagem, ânsia de fazer tantas coisas que ficava paralisada a praguejar contra tudo e todos. Era um demônio de manhã. Às vezes ele ria-se por dentro de uma explicação dada por um índio lá na fronteira com o Paraguai: El significado de mujer em guarani é kuña= língua do Diabo. E riram os dois machos - poderosos de suas falas. Lembrou-se de quando casaram e viveram sete meses de paixão. _É o tempo que dura mesmo! Dizia um amigo: _ Você tem que começar a ir com a gente para a Massagem! Relaxa, Ricardo!
 
 Ele ainda não conseguia. Talvez pelo fato anunciado: Positivo.
 
Não é que tenha acabado, mas aquilo virou segurança, parceria, sociedade. Eles estavam juntos, blindados na caixinha de manteiga-rotina.
 
Uma vez ao mês submetiam-se à árdua tarefa de relarem-se, para manter a aliança sagrada das parcelas: do carro, da casa, dos gastos e desgastes do filho que viria, com planos de saúde, restaurantes, viagens e fetiches. Foi numa dessas que se fecundaram.
 
Lea voltou os olhos para seu homem, para a barriga enorme que crescia a cada lua. Pensava em que nome teria. Sentia a pressão da gravidade dentro e fora dela. A pressão de botar um ser no mundo. Ia parir uma extensão de si e desejava, com uma sem vontade pessimista, que fosse mais forte, que a superasse, que nascesse sem o vazio. Sentiu um chute e chamou Ricardo:
 
_Venha, bote a mão aqui... 
 
Aninhou-se a ela, sua Lea, a que ia parir seu varão. E prolongar o eco deles, mesmo que separados, lá na frente, pela parcela do seguro de vida.
 
 
Janaina Leão, psicóloga
 
 

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