“Como a cigarra acende o verão”

Por: Maria Luiza Salomão

Sinto falta de bichinhos e de sons da minha infância. Tatu-bola, joaninha, vagalumes. Dos sons de grilos, de sapos, das cigarras. Onde estão as cigarras? 
 
Em Altinópolis, por dois anos, ao trabalhar em uma creche, o som que me acompanhava, de manhãzinha ao chegar e de tardezinha ao ir embora era o das cigarras. Um concerto ininterrupto. 
 
Ao procriar, a mamãe cigarra deposita ovinhos nas frestas dos troncos de árvores: eles despencam e entram na terra, nutrindo-se da seiva das raízes das árvores. Da terra emergem, e se tornam cigarras adultas, para cantar, procriar e morrer. A cigarra norte-americana passa 17 anos debaixo da terra e dura no máximo três semanas depois que vai para a superfície.
 
Ela se desprende do exoesqueleto ao se tornar adulta, renasce. A cigarra-macho canta o som mais alto que um inseto lança na natureza; é ouvida a 500 metros de distância. O som agudo é o chamado para o acasalamento e é tão alto que mesmo as cigarras se protegem dele; seus ouvidos se alojam no estômago. Bichinho curioso, que nos faz pensar nas metamorfoses humanas. No taoísmo, a cigarra é símbolo da alma, que desaclopa do corpo na morte. Símbolo da ressurreição, do renascimento e da imortalidade. 
 
A cigarra vive longamente nos escuros espaços debaixo da terra e tão pouco ao adquirir asas e cantar! É melhor rever os conceitos, ao escutar a fábula da cigarra e da formiga. 
 
Assim nascem as narrações das figuras míticas: para acenderem o verão quando invernamos nas nossas tragédias pessoais; a nos iluminar a vida, preciosa em si mesma, com palavras encantadas. 
 
Uma cigarra a ensinar metamorfoses...
 
Ela me lembra que a alegria, mesmo passageira e ruidosa, é produto final de um largo período de tempo. Para gozar a alegria é preciso desacoplar aquilo que foi, um dia, continente para a dor, abrindo espaço para outra pele maior, elástica, adulta.
 
Outros ficamos ao metamorfosear, por isso sem pressa: o verão acenderá maior e melhor, depois do inverno. É sempre uma estação que prepara a outra. No próximo verão, ouça a cigarra: ela sofreu longamente antes de estar a cantar.
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 
 

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