Grão de Arroz

Por: Sônia Machiavelli

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Há uma comparação constante na tradição taoísta que aproxima o ser humano de uma folha, um fruto, um inseto, uma semente, um grão. O taoísmo, doutrina mística e filosófica chinesa, formulada no século VI aC por Lao Tsé, enfatiza a integração do ser humano à realidade cósmica primordial, o tao, por meio de uma existência natural, espontânea e serena. 
 
Há um mistério no ínfimo, poetaram alguns. Por sua beleza e simbologia, pela delicadeza e multiplicidade, um grão em especial inspirou diferentes artistas da palavra. Na Índia, Rabindranath Tagore o transformou em personagem de alguns contos; na China e no Japão é reverenciado até nas artes plásticas; no Ocidente já compareceu em canções, como uma das mais conhecidas da fadista portuguesa Amália Rodrigues: “O meu amor é pequenino como um grão de arroz/ E tão discreto que ninguém sabe onde mora/ Tem um palácio de oiro fino onde Deus o pôs/ E onde eu vou falar de amor a toda hora.”
 
Grão de Arroz é o título do livro que ganhei da amiga médica e poeta Eny Miranda. Sua autora, Yeda Prates Bernis, 88 anos, exibe obra vasta e múltipla, onde se destacam os haicais que fazem a beleza do livro em epígrafe. Responsabilizou-se pelo planejamento visual da mesma, o artista Paulo Bernardo Ferreira Vaz, em parceria com Martin Tapereira. Ambos usaram na capa, contracapa e página de rosto reprodução de detalhe de uma gravura do japonês Hiroshi Utagawa (1797-1858)- A Planície Junan-Tsubo em Suzaki, Fukagaiwa. Escolheram papel em vergê branco, fabricado especialmente para a edição pela Cia Industrial de Papel Pirahy. Encaminharam os filmes do texto e da capa ao tratamento criterioso da Fototraço Ltda. Tudo confluiu portanto para conferir ao projeto gráfico uma qualidade excepcional. Considerei o livro, objeto físico, como um estojo primoroso onde se depositaram com delicadeza os haicais de Yeda Prates, preciosas joias das quais destaco:
 
Na poça d’água
O gato lambe
a gota da lua.
 
Cai da folha
a gota d’água
o oceano aguarda.
 
A história do haicai, este poema curto de três versos, na sua origem com 5,7,5 sílabas, remonta ao Japão do século XVI. Três mestres desta arte concisa são sempre lembrados: Bashô, Busson e Issa. No Ocidente o haicai surge pela primeira vez no século XIX, com os poetas de língua inglesa Blyth e Pound.No Brasil foi introduzido por Nempuku Sato, imigrante que reuniu seus poemas e os teve publicados por Afrânio Peixoto. Guilherme de Almeida inovou o gênero, acrescentando título e comentário. Viriam na sequência cultores como Yeda Prates, Helena Kolody, Paulo Leminski, Alice Ruiz, Millor Fernandes e aqueles a quem Domingos Pelegrini Jr, pesquisador do gênero, adjetivou carinhosamente de haicaipiras.
 
O conceito do haicai está intrinsecamente ligado à natureza e ao espírito, e sua aparente simplicidade requer estudo e análise. No Brasil pode-se dizer que o haicai se aclimatou bem, alargando-se em possibilidades estéticas.
 
Num dos poemas de outro livro, Encostada na Paisagem, Yeda Prates Bernis dá conselhos a quem procura receita para criar um haicai: 
 
 “Se você quer compor um haicai,/à moda de Bashô, mesmo imperfeito,/verifique primeiro se já viveu inúmeras vidas./Comece por despojar-se do supérfluo/ das vestes da alma:/paletó de esnobismo/camisas de inquietude,/agasalhos de orgulho,/meias de apegos./Deixe o espírito, em síntese,/ aquietar-se desnudo./Perceba o cintilar da essência de tudo/que o rodeia./Veja o mundo com o olhar dos anjos,/faça de seus ouvidos concha de inocência,/imite o Poeta Fancisco./Deixe que o silêncio/seja sua própria carne.”
 
Crítico literário rigoroso, Oswaldino Marques, que assina o prefácio de Grão de Arroz, chama aos haicais de Yeda, Haycayedas, num neologismo criativo e inteligente. Com ele busca definir o conjunto de poemas que surpreendem o leitor pela delicadeza e profundidade, alinhando a poeta “aos mais consumados inventores de poesia que se servem do haicai como instrumento.”
 
Yeda Prates não apenas elabora a magia da linguagem chamada poesia, criação dos especialmente inspirados. Ela a embebe de conceitos filosóficos de que nos dá mostra a frase de Tales de Mileto (640-550 a C), um dos sete sábios da antiguidade, escolhida para abrir o livro: “Todas as coisas estão cheias de deuses”.
 
 
POETA
 
YEDA PRATES BERNIS. 
 
“Seu Grão de Arroz é das criações poéticas mais delicadas que já se fizeram entre nós. Nada lhe falta, em emoção contida e limpidez na forma. Cada uma das pequenas composições cintila como pedra preciosa e ressoa como inefável melodia”. 
 
“Tenho lido e relido Grão de Arroz com o maior encantamento. É dos tais livros que deixamos à mão para poder abri-los quando vem o desejo de uma experiência poética que redima o correr do dia.”
 
“Que coisa boa surgir um novo livro de autêntica (e inspirada) poesia! Li de uma só vez, reconfortado ao descobrir que Minas ainda produz grandes poetas”. 
 
Os três parágrafos acima são assinados respectivamente por Carlos Drummond de Andrade, Antonio Cândido, Fernando Sabino. As palavras elogiosas desses escritores célebres e respeitados no Brasil e fora dele, mais que credenciam Grão de Arroz, elas são uma intimação ao leitor de bom gosto para que entre em contato com uma poesia minimalista e repleta de significados. Condensação máxima de sentidos em poucos vocábulos, os haicais de Yeda Prates Bernis diferem de outros por uma pegada filosófica na apreensão do tempo.
 
Mineira de Belo Horizonte, cidade onde nasceu em 1926 e na qual sempre residiu, Yeda formou-se em Letras Neolatinas aos 22 anos. Pouco antes havia se diplomado em Canto e Piano no Conservatório Mineiro de Música, tendo poemas musicados por Camargo Guarnieri sob título Tríptico de Yeda.
 
Seu primeiro livro, Enquanto é Noite, saiu em 1974. Seguiram-se Palavra Ferida, Pêndula, Grão de Arroz, O Rosto do Silêncio, À Beira do Outono, Anotações sobre Zen e Hai Kai, Entre o Rosa e o Azul, Encostada na Paisagem, Cantata, Viandante. Grande parte da obra foi traduzida para o italiano, inglês, espanhol, francês e húngaro.(SM)
 
 
PALESTRA
 
Título: Grão de Arroz
Autora: Yeda Prates Bernis
Editora: Itatiaia
Nº de Páginas: 90
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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