Miranélia somente queria ser feliz

Por: Mirto Felipim

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Miranélia somente queria ser feliz. simples, achava ela. precisava apenas escolher a pessoa certa.
 
quando chegou a essa conclusão, Miranélia vivia o esplendor da juventude. bonita, esguia, empinada e boba desfilava pela escola, festas, feiras e pela vida como se fosse uma pop-star. mimada e atraente, havia sempre algum incauto, deslumbrado, fazendo-lhe a corte.
 
Miranélia carregava vários defeitos. o pior de todos era julgar que sua superioridade colocaria alguém tão superior quanto ela na sua vida. confundia convicção com convencimento.
 
mas a escola acabou, o curso superior acabou, a idade avançou e ela não aprendeu.
 
com a mesma presteza com a qual se aproximavam, os pretendentes partiam. assim, entre um e outro chilique, surpreendeu-se chegando aos quarenta, ainda bonita, com a inevitável fama de “rodada” e relegada à terceira ou quarta opção.
 
sua necessidade de ter um parceiro fixo foi se transformando em ansiedade e a ansiedade em crises histéricas. não admitia a possibilidade de não ter alguém, a não ser que assim o quisesse. e não queria.
 
suas amigas passaram a evitá-la. estar com ela era cair na mesma vala comum da maledicência noturna, alimentada por olhares obscenos daqueles que conheciam a biografia completa da desesperada caça, agora, sem rodeios, ansiosa por ser abatida.
 
os caçadores foram minguando até secarem de vez.
 
apegou-se às amigas, cada vez menos disponíveis, por compromissos vários.
 
tentou o papel de prestativa, sempre disponível para dar conselhos e fabricar soluções, para vidas alheias. 
 
conseguiu com isso acrescentar a pecha de chata e intrometida ao seu vasto currículo. claro, tudo veladamente, pois ninguém estava disposto a aguentar suas crises de rejeitada.
 
aos cinquenta, murcha de esperanças e começando a desconfiar que errara o tempo todo, recolheu-se.
 
não conseguiu sublimar sua carência dedicando-se ao trabalho, ao qual também nunca se dedicara intensamente, afinal era sobrinha do dono.
 
mergulhou então no mundo internético, frequentando várias redes sociais, colocando fotos de seus trinta anos, namorando ciberneticamente rapazes da mesma faixa de idade e que estivessem a uma distância segura, esquivando-se sempre que algum convite de encontro real acontecia.
 
assim foi se sentindo cada vez menos rejeitada, cada vez mais interessante. inventara seu próprio personagem, mais que isso, seu próprio mundo, e representava alucinadamente em busca da felicidade sempre perseguida.
 
ao ser internada, vociferava desesperadamente que não poderia ir, seu noivo estava para chegar e tinha uma enorme lista de providências a tomar. quando o sedativo já fazia todo o efeito esperado, balbuciava ainda com os olhos fixos no horizonte perdido.
 
Miranélia ficou internada vários anos, até que um primo assumiu a responsabilidade e a levou para passar seus últimos dias em uma fazenda da família, onde finalmente encontrou a paz, e seus olhos verdes passaram a enxergar o mundo impossível com serenidade.
 
 
Mirto Felipim, poeta, observador, escritor.

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