O manequim

Por: Paulo Rubens Gimenes

O texto do Luis Cruz de Oliveira publicado no “Nossas Letras” sobre o camelô  Zé Biloca e o clima de Copa do Mundo transportaram-me para uma outra copa, a de 1982 na Espanha.
 
Zico, Sócrates, Falcão, Junior! Aquilo sim é que era seleção, aqueles sim eram bons tempos; embora meu lado cético ataque qualquer sinal de saudosismo otimista com a máxima:  “Não eram aqueles tempos que eram bons,  a gente é que era bom naqueles tempos.”
 
Cursinho Objetivo do Marquinho Saraceni, todos com idade entre 17 e 18 anos e um extenso repertório de apelidos – Zé Galinha, Totó, Porquinho, Moreia,  Urtigão, Buriti, Cabaço, Pardal, Peri, Caçapa, Cisterna, Banana, Maionese, Batata, Biscoito, Punha, Piu-piu, Pikira, Blã, Ban-Ban, Batman, Nazista, entre outros impublicáveis aqui – mostrava  muito bem o humor ácido que permeava as brincadeiras da galera pra desespero de heroicos professores como Simi, Pozzini, Olívio, Marcelino, Paulo, Ivonzinho, que tentavam incutir conhecimentos aos alunos no meio daquela algazarra.
 
Mesmo sem a  intensidade dos dias de hoje, naquele tempo também éramos ligados em roupas de grife – All Star, Ocean Pacific, Hang Tem,Levi`s, Fiorucci, Staroup, Pool, Dijon e outras faziam a cabeça da moçada; por outro lado, tudo que parecesse ou remetesse a vestuários mais simples, automaticamente era motivo de chacota no infeliz usuário.
 
Mas, como disse, era tempo de Copa do Mundo  e a classe se vestia de verde e amarelo; Plínio, um dos maiores gozadores da turma, certo dia chega usando uma camiseta, diríamos assim, muito pitoresca, carregada de  grafismos verde-amarelos, no cruel julgamento da classe – brega mesmo!
 
O tempo que Plínio levou para chegar ao seu lugar, é claro lá no “fundão da Bagunça”, bastou para que um criativo encapetado gritasse:
 
- “Bonita camisa, hein?! Manequim do Zé Biloca!”
 
Risos, gargalhadas e muita gozação até o final da aula.
 
Anos depois, Plínio virou doutor; a camisa do Zé Biloca? Dizem que virou pano de chão ou foi queimada bem antes daquele fatídico jogo contra a Itália de Paolo Rossi. 
 
 
Paulo Rubens Gimenes, publicitário e ex-conselheiro do Comércio da Franca
 

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