De primeiro (10)

Por: Luiz Cruz de Oliveira

De primeiro, existia era uma fazenda enorme, cortada por um caminho boiadeiro. A estrada subia, subia, fazia uma curva para a esquerda, descia, atravessava o córrego da Ponte Preta e subia, subia, até chegar a Covas, onde ficava a primeira estação da Mogiana, depois de Franca.
 
Uma vez, eu passei a cavalo pelos restos daquela estrada. Acompanhava meu pai na condução de vacas para distante sítio, lá para as bandas de Cristais, que então ainda era Guapuã. A cidade já andava lentamente: no espaço, rumo a Covas; no tempo, em direção a Miramontes.
 
A crônica oral de Franca relata que, começando aqui e ali, e cada vez mais, foram surgindo pequenas moradias de um e de outro lado do caminho. Com o tempo, os moradores do lugar, mais funcionários da Prefeitura Municipal, empunharam enxadões, picaretas e pás e foram aplainando o leito da estrada que, por fim, foi promovida a via pública, batizada com o nome de Rua Irmãos Antunes.
 
Aquele era um lugar abençoado. Acolheria ali, em 1922, fundado por José Marques Garcia,  o Asilo Alan Kardec – segunda entidade de tratamento psiquiátrico do país.
 
Até então, José Marques Garcia vinha recolhendo doentes mentais dos quais cuidava em sua própria residência e em pequenas edificações que levantava. 
 
Em 1933, o asilo passou a se chamar Casa de Saúde Alan Kardec. A partir de 1972, recebeu o nome com que é identificada até hoje: Fundação Espírita Alan Kardec.
 
Durante seus primeiros 47 anos de vida, a entidade sobreviveu de trabalho voluntário e de donativos. 
 
Também do lado esquerdo da Rua Irmãos Antunes, foram construídas, em 1944, as primeiras instalações de uma entidade que objetivava operar na área da Educação. Ela recebeu a denominação de Educandário Pestalozzi, e seus idealizadores  foram o médico Tomaz Novelino e sua esposa Maria Aparecida Rebelo Novelino. Em 1954, a entidade ampliou suas atividades, criando ali um internato para órfãos e adolescentes menos favorecidos. Dez anos depois, criava também um Lar Escola onde eram atendidas, em tempo integral, crianças de 4 a 12 anos de idade.
 
O tempo e o trabalho transformaram a inicialmente modesta escola num sólido centro de educação de crianças e jovens - orgulho dos francanos.
 
Ainda no lado esquerdo da Rua Irmãos Antunes, surgiu outra entidade. Foi instalada no ano de 1947, sob a direção de José Russo, que também dirigiu a Casa de Saúde Alan Kardec por 36 anos. A iniciativa foi a construção do Centro Espírita Judas Iscariotes que, de pronto,  criou um abrigo noturno, transformado, algum tempo depois, na Casa do Vovô. Naquele espaço, destinado inicialmente a abrigar exclusivamente homens, foi acolhido e cuidado o poeta Moisés Maia.
 
Em 1977, construíram, noutro espaço,  o Lar de Ofélia, destinado a abrigar unicamente mulheres. Múltiplas condições favoráveis concorreram para o crescimento da instituição, inclusive de seu espaço físico. Então, o Lar passou a acolher necessitados de ambos os sexos. Hoje, no endereço inicial, funcionam o Centro de Convivência de Idosos, Nélson de Paula Silveira , e o Teatro Judas Iscariotes.
 
 Em 1947, o nome da Rua Irmãos Antunes foi substituído. Aquela via passou a denominar-se Rua José Marques Garcia. Foi uma maneira de a cidade, reconhecendo a importância de sua obra, homenagear José Marques Garcia.
 
Poucas vezes uma homenagem foi tão cabível. 
 
Dando-se o nome de uma bendita criatura a um logradouro indiscutivelmente bendito, pereniza-se um exemplo de verdadeiro amor ao próximo, aquele concretizado em obras. 
 
“A história de uma rua não traduz o pensamento de um povo”, mas pode bem ser porta e farol para caminhos de construção do ser humano. 
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras