Ser pensante: o milagre

Por: Maria Luiza Salomão

Crianças têm virtudes tenras: espontaneidade, confiança nos seus cuidadores, o companheirismo constante, entrega cega a quem depende. Creem: incondicionalmente. Não duvidam: verde virtude.
 
O adolescente tem virtudes pedregosas. Sofre intensamente, tem medo (mas esconde) e duvida de tudo, dos valores e dos senhores, das ditaduras e das comodidades fáceis. Crê na busca da verdade, na determinação em expandir seus horizontes, nem sabe que ousa, mas quer arrebentar qualquer fronteira ou limite. Não domina suas convicções, mas é por elas dominado: ele age em bandos ou sozinho (um monobloco), sem dúvidas. 
 
No adulto as virtudes são complexas, ambivalentes. Sabedor dos limites no seu conhecimento e da possibilidade de realização do que quer (pelo escasso tempo, e escassos dons), o adulto precisa de coragem para abrigar as virtudes da criança e do adolescente. No adulto a grande virtude é pensar, moldar sua singularidade (e sua articulação social): sem a fé cega infantil, sem a ação voluntarista adolescente. 
 
Pensar tem bônus e ônus. Quero aqui dizer o pensar não intelectual, mas o pensar sentindo, sofrer angústia pelas contradições, pelas escolhas. Acontece um milagre, ao pensar: o reconhecimento da provisoriedade e da precariedade dos conhecimentos; a constatação de ser parte de um todo maior; a legitimidade de outros seres pensantes na mesma relação parcial com o vasto mundo. 
 
Pensamentos, como cabelos e unhas, em geral, crescem à revelia, como galhos de um cipreste, retorcem-se ao som da música do vento, como pintou Van Gogh. 
 
Na saúde, o ser pensante - domador de pensamentos selvagens - é desenvolvimento. Na doença há variações. É preciso saber como se fabrica pensamentos. Essencial para o ser pensante é reconhecer a liberdade de outros seres que pensam. Virtudes e vícios se diferenciam nessa simples e complexa sabedoria. 
 
Homero inaugurou a literatura ocidental, cantando as virtudes de Odisseu, 800 a. C.. Um herói muitíssimo humano: sua viagem é a elaboração de sua identidade: ele foi para a guerra de Troia sob coerção, mas conseguiu retornar, depois de muitas aventuras, graças às suas virtudes: prudência, sutileza no uso das palavras, capacidade de entrega, mas também de se manter esperto, de espírito prevenido, resistente, persistente, com a coragem de se manter fiel ao propósito de retomar o que lhe pertencia de direito: Ítaca, a esposa Penélope, e o filho Telêmaco.
 
Ulisses foi um ser pensante. Como ele, rodamos o mundo para, alfim, reconhecer o próprio quintal, os amigos, as raízes. Emmanuel Lévinas diz: ‘a condição do pensamento é uma consciência moral’ (o milagre). Vemos a ética de Ulisses no pensar as experiências, diante de fatos inelutáveis. Fatos que excedem sua figura (ou o próprio Homero, autor da Odisseia).
 
Não acredito na inevitabilidade do Mal. Como ser pensante, como Ulisses, eu tenho consciência de que há forças maiores do que as minhas, obstáculos para os quais necessito ajuda para enfrentar as densas viagens, interiores e exteriores. 
 
- Essencial manter o rumo e o prumo para não perder o caminho para Ítaca: leal aos leais. 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras