Agência Brasil

Por: Everton de Paula

Aos vinte anos já me encontrava na faculdade, cursando Letras. A tal de aldeia global, conceito de McLuhan para as comunidades na era da globalização, ainda não havia sido absorvida nesta parte geográfica em que vivia. De forma que no recorte que eu fazia da cidade, só conhecia a parte que se chamava sede; da Estação nada sabia. É claro que tínhamos conhecimento da estação de trem, do cine Santo Antônio, da igreja de São Sebastião, da praça Sabino Loureiro e de seu alto-falante que animava os brotinhos aos sábados à noite; dos laticínios Jussara... Sem contar o Clube dos Bagres; mas este não valia, porque ficava justamente na divisa, com portas de entrada para a ponte da General Carneiro. Eu só conhecia três livrarias, bnde, desde estudante no IETC, comprava os objetos escolares e os livros: a São Sebastião, do senhor Durval, a Livraria Pucci, na praça central, e a Agência Brasil, na Praça Barão. Na São Sebastião, o proprietário já me conhecia; comprava de caderneta, ou de carteirinha. Não sabe o que é isto? 
 
A gente criança, e mesmo adolescente, solicitava o material escolar e mandava marcar na conta do nosso pai. Fim de mês ele acertava tudo. E assim era no açougue do Teixeira, no Empório Coelho do senhor Olintho, na venda do senhor Corona, na Padaria Minerva...
 
Voltemos aos livros. Já na faculdade, não nos exigiam objetos escolares, e sim livros, livros e mais livros. Talvez eu levasse certa vantagem sobre meus colegas de classe. Em 1968, um ano antes de entrar para a faculdade, fora escolhido por Alfredo Palermo para representar Franca na Semana Euclidiana. Prepararam-me o próprio Palermo e Assuero Quadri Prestes. Foi um semestre inteiro para ler Os Sertões, sem contar obras de apoio. Daí para Rosa e Lobato adulto foi um pulo. E assim entrei no primeiro ano de Letras.
 
É preciso que se diga da excelência da biblioteca da extinta Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Franca, embora teimava em formar a minha particular, depois de haver visitado a do professor João Alves Pereira Penha. Penso que ali se configurava, a nós estudantes universitários, o ideal das fontes de pesquisas impressas. Perderíamos alguns anos mais tarde a faculdade e os livros tão queridos e procurados. Parece-me que tudo fora destinado à cidade de Assis, salvo engano.
 
Eu não podia comprar livros, de modo que muitas vezes os lia nas livrarias. Isto mesmo: e a minha preferida era a Agência Brasil. Lá trabalhava a Lazinha, amiga da família. Sabedora de minhas condições, emprestava-me o livro que eu pedisse. Eu os pegava, com todas as delicadezas, subia uma escada, dava de frente para um senhor meio cego, de óculos escuros, acho que o próprio dono do estabelecimento. Ajeitava-me numa cadeira e me colocava a ler. Devorava-os tardes inteiras. Precisava contar com a sorte para que ninguém os comprasse. Assim foi meu romance com Dom Casmurro, A Ilustre Casa de Ramires, Memórias de um Casaco Verde, Tanta Gente, Mariana; O Guarani. Principiava a leitura, anotava num caderno próprio minhas impressões e voltava várias vezes até terminar. Depois, era fazer as provas com a Páscoa Baldassari, o Alfredo Rodrigues, a Yara Frateschi Vieira.
 
Certa ocasião, fui à Agência Brasil e pedi à Lazinha para ler Guerra e Paz, de Tolstoi. Lembro-me do suspiro que ela deu, provavelmente pensando nas consequências que lhe sobrariam ao administrar dois volumes avantajados. Era leitura para mais de um mês. E pela primeira vez, Lazinha delicadamente me explicou o quão difícil seria para ela emprestar-me a principal amostra de sua vitrine.
 
Entendi. Agradeci. Retirei-me.
 
Pouco a pouco apoderou-se de mim um tal desejo de possuir essa obra que acabei por economizar pouco daquilo que ganhava como revisor do jornal Comércio da Franca, na época da direção de Alfredo Henrique Costa. Sem as sessões dominicais no Odeon, no São Luiz, sem o quibe e o rabo-de-galo em frente à AEC, antes das brincadeiras dançantes, por mais de um mês, consegui economizar algum.
 
Pronto, iria adquirir os dois volumes de Tolstói, da literatura russa. Mas quando voltei à livraria com o dinheiro, encontrei a obra posta de parte numa prateleira ao lado de um pequeno cartão no qual se lia “Reservado”.
 
Tristemente desapontado, expliquei o caso à Lazinha, que me disse:
 
- Reservei o livro porque não queria vendê-lo antes que você o lesse. A finalidade de um livro é ser lido, mesmo que o seja numa livraria de vendas. Acho que estava mesmo reservado para você.
 
Não sabia como agradecer tanta bondade, tanta compreensão.
 
Comprei-o e o trago, até hoje, em destaque numa prateleira de minha, enfim, biblioteca particular. Tenho-lhe apreço especial, não pelo romance e os significados (que são muitos) de Natasha para mim, mas porque simboliza uma atitude nobre de alguém que me fora tão especial e prestimosa na minha época de faculdade: a Lazinha da Agência Brasil.
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras