Do título

Por: Caio Porfirio

Quando escrevi o romance O sal da terra, tema que aborda a vida dura e sofrida dos tarefeiros das salinas dos subúrbios de Fortaleza, hoje desaparecidas, permanecendo as grandes salinas do Rio Grande do Norte, intitulei o meu trabalho, difícil de realizá-lo, de Sal verde, porque assim chamavam o sal que estava sendo apurado nos cristalizadores. Ou seja: estava verde ainda e não maduro para ser recolhido. Tal fruta verde e fruta madura.
 
A Editora Civilização Brasileira, que o aprovou e lançou, sugeriu que eu mudasse o título, porque Sal verde era um tanto poético e se tratava de tema áspero e doído. Não encontrei outro. O escritor Luiz Toledo Machado, então vice-presidente da União Brasileira de Escritores, sugeriu-me o título um tanto bíblico de O sal da terra. Aceitei-o porque eu não saí da enrascada e o verde me perseguia. A editora concordou. Tirou uma bela edição de quatro mil exemplares, o meu saudoso amigo escritor João Antônio fez as orelhas e -- desculpem -- o livro ‘estourou’ em venda e comentários favoráveis. Mas dentro de mim permanecia, espicaçando-me, o Sal verde, porque eu via, para além do título, o ‘demônio branco’ nascendo e martirizando tanta gente com o cloreto de sódio.
 
Contei isso ao Renzo Mazzone, recentemente falecido, poeta e dono da Editora I.L.A. Palma, de Palermo, que lançou o livro em italiano. Ele, que traduziu tantos poetas e escritores brasileiros, vinha muito ao Brasil e ligou-se à União Brasileira de Escritores, pensou no que eu disse, pensou, pensou, coçou o queixo, apontou-me o indicador em riste e decidiu:
 
- Pois em italiano o título do seu romance será Sale verde della terra. 
 
Alcançou o título exato, que descia fundo o mundo branco salineiro: Sal verde da terra. Comovi-me. E com este título foi lançado, na Itália, em bela edição. 
 
No Brasil, novas edições se sucederam: duas seguidas pela Editora Ática, e a quarta, com capa expressiva e excelente divulgação, pela Editora Letra Selvagem, do escritor Nicodemos Sena, sediada em Taubaté, São Paulo. O livro chegou, em resumo, ao árabe. Todos com o título original -- O sal da terra. Foi tema de estudo em Boulogne e traduzido para o francês, mas ainda não publicado. Duas adaptações para o cinema e não filmado, por vários motivos, particularmente o financeiro. Nesse caminhar tortuoso segue o livro, sempre com título original de O sal da terra. 
 
Vendo aqui, à minha frente, um exemplar da edição Letra Selvagem, sinto saudade do que me disse, dedo em riste, o saudoso editor italiano Renzo Mazzone: ‘O título é Sale verde della terra’ Ou seja: Sal verde da terra. Encolho os ombros. Fazer o quê? Um livro com dois títulos? 
 
Vai, livro meu! Você continua verde, cumprindo o que afirmou Pedro aos Gálatas: ‘Tornei-me, porventura, vosso inimigo, por vos dizer a verdade?’ e exclamava o negro Valério, o tarefeiro: ‘Salina é caiada como cemitério.’ E continua maduro aos que acolherem e acolhem favoravelmente. 
 
Conforta.
 
 
Caio Porfirio,  escritor,  crítico literário, secretário administrativo da União Brasileira de Escritores, ganhador do Prêmio Jabuti
 

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