Bem-te-vi!

Por: Eny Miranda

A procura de tema para o meu texto, eis que vejo um bem-te-vi: canta no fio, voa e pousa bem à minha frente. Não pense o leitor que as aves sempre me assistem facilmente, por amor, solidariedade aos meus indagadores olhares ou simples curiosidade. No mais das vezes, a arte é do acaso. Desta, uns farelinhos de biscoito que me escaparam das mãos. De uma forma ou de outra, estar tão perto de um ser acostumado à liberdade, aos azuis ventos das alturas (a prudente distância dos homens), e chegado a mim deste modo espontâneo, intimorato: prévio canto de anunciação seguido de rápido voo e pouso confiante; peito amarelo estufado sob casaco pardo, cabecinha ágil a baixar-se e levantar-se, à cata dos farelinhos... É de se pensar.
 
Neste clima de Copa, com o amarelo vestindo corpos e almas - largas pinceladas de ruidosa brasilidade transmitida aos quatro cantos do mundo, mesmo em horizonte enfumaçado -, um louro vivo, feito de penas, alegria(?), destemor e luta por sobrevivência, pulsando sob o cinza que lhe cobre o corpo, me chama especialmente a atenção.
 
Seria ele um mensageiro? Uma mensagem? Um presságio, uma profecia? Pequenina fênix, renascida em espírito e esperança? Seria pura metáfora? Ou apenas um sonho?
 
Pois este Pitangus sulphuratus chega dizendo que viu, aliás, que “bem viu”. (Pelo menos os franceses da Guiana creem nele, já que o chamam de qu’est-ce qu’il dit, ou seja, - para eles é - o que ele disse). Hoje, contudo, este ser “dizente” me confunde. Sim, ele diz que viu. Mas viu o quê? O amarelo que agora pinta cenários, olhos e horizontes cinzentos? Ou o que colore o seu peito? O que ele viu, afinal, num momento como este? O áureo ou o sulfuroso? 
 
Eis o meu bem-te-vi, à procura de crédulos em visões, em vaticínios, “num mundo enfastiado que já não crê nos bichos/ e duvida das coisas”, como aquele do Elefante de Drummond. Eis o meu bem-te-vi (que vejo, ou que fabrico “de meus poucos recursos”) dizendo que bem viu algo. Ei-lo, imagética ave em busca de poetas, num mundo de pouca poesia.
 
Ah, bem-te-vi, bem vejo como são vastos os seus horizontes, e como é estreito o meu olhar!.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 
 

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