A pipa e o turco

Por: Everton de Paula

Era preciso que chegassem as férias de julho. Tempo frio, seco, de céus claros... E vento que era muito. 
 
A pipa se fazia como sempre se fez: duas varetas de bambu, linha, 2 folhas de papel impermeável, tesoura. Não havia bambu que se vendesse em alguma loja. Íamos ao buracão do Educandário Pestalozzi, e cortávamos um pedaço suficiente e logo trazíamos para casa. Cortávamos em tiras finas de modo a se fazerem duas varetas rigorosamente medidas com a régua da escola. Fita métrica da mãe, nem pensar. Logo nos dirigíamos à sombra da frondosa mangueira no quintal de Olívia Costa, diretora da escola e esposa de Alfredo Henrique Costa. A vareta central tinha 60 cm. A vareta de cima 50. Formávamos uma cruz com elas, amarrando-as com cordonê. Bem que eu insistia que as folhas deveriam ser de papel celofane, transparentes, lindas, iam ficar brilhando no céu. Logo recebia um coque de meu irmão mais velho, sinal para não dizer bobagens. 
 
Atadas as varetas em cruz, com um bico de 10 cm, fazíamos um arco, com os braços da cruz e logo o prendíamos também com linha grossa. Aí era colar o papel, cortado e disposto sobre partes que quase formavam um losango. Goma arábica demorava muito para secar. Então fazíamos nossa própria cola branca daquela época, à base de farinha de trigo e água. Um mingau grudento.
 
A linha era um carretel surrupiado da máquina de costura da mãe.
 
Pronto: a brincadeira da primeira semana de julho estava garantida. Ninguém falava em cerol, não existia, porque ainda não havia maldade nem batalha no ar.
 
Molhávamos a ponta do dedo indicador com saliva, erguíamos o dedo no ar para saber a direção do vento.
 
E soltávamos a bichinha. Lá ia ela se balançando e alçando alturas nos ares limpíssimos das férias. Os mais velhos da turma juravam que suas pipas voltavam umedecidas do céu, porque haviam atingido alguma nuvem. E eu acreditava. 
 
Vez ou outra, devido a um golpe mais forte de vento, a linha arrebentava e lá se ia a pipa perdida. Saíamos em bando pelas calçadas do quarteirão, sem perder de vista. 
 
É preciso que se diga que a palavra “pipa” não era usada na época. Após muitas e sérias consultas a enciclopédias, descobri que em nossa região esse artefato tem, ao menos, três nomes: pipa, índio e papagaio. Nós falávamos papagaio.
 
- Olha lá, olha lá... Está caindo no quintal da casa do turco.
 
O turco era um velho que morava sozinho num casarão em frente à antiga Praça João Mendes. O centro dessa praça era o nosso campinho improvisado de futebol de meia. Às vezes aparecia uma bola de cobertão. A gente chutava com todo o muque essa bola... Até que ela caísse no quintal do turco. Ele devolveu a primeira vez que pedimos. Devolveu a segunda vez, reclamando. Na terceira, também devolveu, mas a bola estava furada com ponta de tesoura. Engolimos em seco o desapontamento e o ódio de criança contra o homem, que era dono de uma mercearia pequena, de esquina.
 
Num dia, pela manhã, soltamos a pipa vermelha e azul. Beleza de subida, vento na medida certa, até que a linha arrebentou. E a pipa veio caindo bêbada, suspirando, até pousar... Sabe onde? Certo, no quintal do turco. Na base do “lá em cima do piano tem um copo de veneno quem bebeu morreu quem saiu fui eu”, é claro, eu fui o escolhido para bater na casa do homem que ainda não havia se retirado para a sua mercearia.
 
Bati na porta, a turma lá de longe olhando. O homem me olhou de cima para baixo. Expliquei o que queria. Ele pediu para eu esperar um pouco. Fechou a porta. Olhei para a turma e encolhi os ombros. Fiz menção de retornar ao bando. Mas a gurizada fez um veemente “não” com as mãos e todo o corpo. Aguentei ali firme. Agora iria até o final. A porta se abriu. O turco me entregou uma caixa de sapato. Estranhei. Levei-a para a turma. Abrimos a caixa. Lá estava nossa pipa toda recortada, dilacerada, mutilada, inutilizada para sempre.
 
Vingança!
 
No armazém do seu Corona arame farpado era vendido por metro. Juntamos o que restara de nossas mesadas em casa, compramos um metro de arame farpado, fomos para casa, com muito cuidado escolhemos quatro farpas com três pontas cada. O velho alicate do pai serviu para o corte.
 
O turco sempre estacionava seu velho Ford 38, preto, em frente a sua casa. Com mil disfarces, colocamos duas farpas na frente dos pneus dianteiros e duas atrás de cada pneu traseiro. Assim, se o carro fosse para frente, teria dois pneus furados. Se desse marcha-a-ré, os traseiros. 
 
Não ficamos para ver no que ia dar a tarde.
 
Após o almoço, voltamos à pracinha. Nada do Ford.
 
Parou de ventar.
 
Mas também não havia papagaio para soltar.
 
Voltamos para casa e jogamos pião. Ainda dava tempo para uma peladinha de bola de meia, mas chamado de mãe era mais forte.
 
Banho.
 
Hora do jantar.
 
Os sinos da Igreja Nossa Senhora das Graças anunciaram as 18 horas, Ave-Maria. Papai chegou, tirou o paletó, arrumou-o sobre a cadeira e disse a minha mãe:
 
- Sabe quem morreu? O turco da mercearia. Fiquei sabendo agora. Morreu hoje a tarde, trabalhando.
 
Fiquei mudo em meu canto. Será que os outros já sabiam?
 
Até hoje não consigo separar o arame farpado da morte do turco.
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras