‘Redesenhando meu mundo’

Por: Sônia Machiavelli

255379
No prefácio ao livro do francano Fabrício Silva Rodrigues, Redesenhando meu mundo, o escritor Luís Cruz de Oliveira resgata palavras de amigo comum, o saudoso Sebastião Expedito Ignácio, filólogo que por uma década esteve presente neste caderno: “ Escrever não é nenhum bicho de sete cabeças, é um bicho de pelo menos quatorze cabeças”. Todos nós que lutamos com palavras para traduzir na escrita nossos olhares sobre a realidade e principalmente nossos sentimentos, sabemos que é isso mesmo. Difícil, muito difícil, verbalizar o ‘humano, demasiadamente humano’, no dizer de Nietzche. O jovem Fabrício demonstra em sua obra que vem encarando com coragem este desafio gigantesco e traz ao leitor seu terceiro título de cunho confessional e autobiográfico.
 
Ao terminar de ler as 127 páginas, a impressão que me ficou em termos de forma é que sua estrutura se assenta em capítulos que lembram orações coordenadas assindéticas, as quais, colocadas em sequência, formam o grande período que é o próprio livro. Como frases do tipo, eles têm autonomia por si mesmos, apresentam sentido próprio, podem ser deslocados sem prejuízo de sentido e não são subordinados aos anteriores. Mas ler um capítulo ilumina os outros e é na sequência escolhida pelo autor que a sua narrativa pessoal se adensa em sentidos e motivações. A vida de Fabrício mostra dificuldades que poderiam desanimar quem não tivesse, como ele, garra e talento para lidar com a linguagem e sua potência expressiva; para não se deixar abater pelo mal físico que o atormenta com desconfortos, dores e impedimentos. Fabrício sofre da Síndrome de Duchene, que paulatinamente vem imobilizando seu corpo.
 
É quase um milagre o livro que escreve, pois os empecilhos que deve enfrentar são de toda ordem e começaram muito cedo: antes que pudesse ser alfabetizado em escola regular, foi pressionado a sair, por razões entre as quais se poderia listar a crueldade infantil. Frequentou o primeiro ano por apenas seis meses, mas era tal sua vontade de aprender a ler, que o processo se fez de forma quase autodidata, em casa, já aos 13 anos. A história que conta no livro poderia ser adjetivada apenas de comovente, não tivesse como outras qualidades a construção de imagens fortes, metáforas inusitadas e uma condição de constantemente se indagar sobre seus sentimentos, os quais tenta compreender e nomear, como se assim o fazendo pudesse amenizar a dor incessante. Muitas vezes, intercalados, irrompem relatos de uma racionalidade impactante, que tocam o leitor pelo trágico de seu enunciado. No capítulo De frente com a morte, ele diz: “Nascer com um suposto tempo de vida determinado até os 18 anos, gerou em mim uma corrida contra 
o tempo; ver que nada cooperava para as realizações dos meus desejos era frustrante. Cada dia que passava, mais eu me aproximava da morte inevitável”
 
A se considerar o livro como uma autobiografia, na primeira parte o autor nos apresenta um mundo relativamente estável, onde se situam seu nascimento e a primeira infância, já marcada pela doença e o comportamento confuso da mãe. Na segunda, a saída de casa, a busca por uma autonomia custosa, o encontro com pessoas generosas que o ajudam a se entender em meio a muito sofrimento. Na terceira, síntese das anteriores, desabrocha uma personalidade mais agressiva em relação às suas demandas e desejos, o que alavanca o relato e lhe confere maior densidade emocional. O fato de aprofundar o olhar para dentro de si, à medida que passa a interagir de forma mais franca e efetiva com os que encontra em seu caminho, o leva a um exercício cada vez mais enxuto do material bruto que deseja fazer chegar ao leitor: “Sempre me senti em um mundo maior do que me cabia. Pensava que não suportaria”; “Ao olhar para trás, vejo momentos em que me sentia menino com responsabilidades de adulto. Na parte menino via-me amedrontado, carente, indeciso e inexperiente. No meu lado adulto, sentia-me assumindo responsabilidades e lugares que pareciam não serem meus.”
 
É a capacidade de traduzir essa inadequação o ponto forte do relato de Fabrício e as margens pelas quais ele mais se aproxima da literatura, pois fala de algo que diz respeito à nossa humanidade. Esse sentimento de desconforto associado a medo, carência, solidão, impotência e abandono, se nos pega a todos em algum momento da existência, em Fabrício representa uma linha contínua contrabalançada porém por rasgos de coragem, como se lê à página 83: “(...) embora a sensação de temor de se cair seja aterrorizante, há como esquecer o medo e pode-se abrir os braços lá de cima e sentir-se livre, ao perceber o toque do vento nas penas de minhas amplas asas. Esse foi o dia em que comecei a ver que posso me libertar de meus temores.”
 
Se substituirmos asas por palavras, talvez possamos entender o livro de Fabrício também como uma catarse libertadora: elas o habilitam a alçar voos a partir de um mundo onde viver é compreender-se limitado em alguma dimensão, mas nunca em todas. Aliás, com quem não acontece o mesmo?
 
 
O ESCRITOR
 
Fabrício Silva Rodrigues 
 
Nasceu em Franca no dia 25 de fevereiro de 1981. Sofre de Distrofia Muscular de Duchenne, uma doença genética incapacitante, de caráter regressivo. A criança nasce normal e demora um pouco para andar. Entre dois e quatro anos, cai muito. Aos sete deixa de correr e subir escadas. Aos doze perde a capacidade de andar. Ao longo deste período ocorrem contraturas nas articulações. O quadro vai se agravando até o comprometimento atingir toda a musculatura. Nesta fase o uso de aparelhos BiPAP, de ventilação assistida, se faz necessário para dar mais conforto ao paciente. A grande esperança de tratamento para portadores desta distrofia está no potencial das células-tronco embrionárias para formar os tecidos necessários à substituição do músculo que está se degenerando.
 
Tudo o que o leitor acompanhou no primeiro parágrafo é contado por Fabrício no seu livro Redesenhando meu mundo, lançado neste ano na cidade pela Ribeirão Gráfica Editora, com capa sugestiva de Alexandre de Oliveira Souza, prefácio de Luiz Cruz de Oliveira, contracapa de Marcos Vinícius Vaz Martins. Cruz diz que Fabrício faz “de cada minuto de sua vida uma batalha gigantesca de superação de dificuldades”. Martins, referindo-se também ao autor, comenta que “existem pessoas que nos inspiram a ser melhores e que nos levam a rever o nosso jeito de ser e pensar.”
 
Redesenhando meu mundo é o terceiro livro de Fabrício. Em 2008 ele lançou dois. À Vida, em fevereiro; e Voo, em novembro. Sobre o primeiro, afirma numa das orelhas “ser composto de uma mistura de poemas e crônicas simples e poéticas”. A respeito do segundo revela, na outra orelha, que representa sua vontade de se liberar das dificuldades e limitações. (SM)
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora
 
 
LIVRO
 
Título: Redesenhando meu Mundo
Autor: Fabrício Silva Rodrigues
Editora: Ribeirão Gráfica e Editora
Nº de Páginas: 130

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras