Fotografia

Por: Jane Mahalem do Amaral

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Isso pode ter sido na década de 1950, pois eu deveria ter uns 6 ou 7 anos. Fui levada para tirar um retrato. Era assim que se falava naquele tempo e esse momento era um evento especial: roupa nova, cabelo arrumadinho e mil recomendações para que ficasse quietinha e fizesse tudo que o fotógrafo pedisse. A foto hoje está em um porta-retratos na minha casa, ao lado de meu pai para comparar as semelhanças. Antes, ela vivia em um álbum de fotografias, de poucas páginas, mas de toda a família. Lá havia lugar para todos, pois cada um tinha apenas uma ou duas fotos. E nos dias de festas ou de visitas, o álbum saia da gaveta para que as tias e primos o olhassem cuidadosamente, tirando dali muitas conversas familiares, animadas e alegres.
 
A mudança tecnológica transformou esse evento histórico em uma prática corriqueira e sem significado. Hoje tudo se fotografa: gatos, comidas, a cerveja, o vinho, os bebês, o jantar, o restaurante e agora os famosos “selfies”. Psicólogos e sociólogos têm analisado esse comportamento e muitas são as opiniões. Alguns dizem que vivemos um narcisismo exacerbado. Outros consideram a foto nas redes sociais como uma forma de fugir da solidão. Também reconhecem ser esse um processo de autoafirmação e afirmam que no mundo contemporâneo nada mais existe a não ser em forma de anúncio ou de publicidade. Se eu não estou na foto, será que eu existo mesmo?
 
Há uma distância entre o que eu sou e o que eu gostaria de ser. Entre esse dois pontos, há um caminho a percorrer. Muitas vezes fico do lado de cá, me iludindo que estou do lado de lá. O que eu gostaria de ser pode estar na foto e eu então me divido em duas entidades distintas: aquela pessoa que está viajando e aquela pessoa que tira a foto de quem está viajando. O mundo se fecha no visor do celular ou da máquina fotográfica e nada mais pode ser sentido e vivido simplesmente como aquilo que é. A imagem engoliu minha presença real. A realidade é uma imagem. E para quem estou tirando essas fotos? O que estou querendo dizer aos outros, ou melhor, o que eu estou querendo dizer a mim mesmo? 
 
Penso que o medo de nos reconhecer numa vida não vivida nos assombra e nos distancia de nossa alma. Assim, para fugir do imprevisível da vida, criamos nossa própria forma, ou pelo menos, a ilusão de ordenar, prever ou assegurar o nosso cotidiano. Que parte da nossas vidas estamos evitando ou rejeitando? O que estamos tentando captar com nossas lentes?
 
Nossa alma vazia está sussurrando através das imagens sem alma. Nietzsche disse em algum momento que precisamos ser cautelosos para olhar para o abismo, para que o abismo não olhe para nós. Talvez seja essa profunda conversa com a nossa própria jornada que esteja faltando. Talvez a coragem para olhar pela janela da ferida e constatar que não estamos no controle, apesar de tudo. A fotografia não pode tomar o lugar da vida, mesmo que eu perceba que, de alguma forma, a realidade não me contenta.
 
Acho que aquela menininha sentada no porta-retratos tem que continuar me olhando nos olhos para me dizer que não adianta fugir, pois luz e sombra fazem parte das nossas agendas secretas. Não queremos nos arrepender por ter deixado algumas das melhores partes da vida para trás. Para o nosso engrandecimento espiritual será preciso virar a câmera para a alma, fotografar nossas luzes, mas não ter medo de revelar as sombras. Ouvir o clique no coração, encontrar a nova terra que devemos ocupar e descansar no porto seguro de nossa própria história.
 
 
Jane Mahalem, escritora

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