De primeiro (11)

Por: Luiz Cruz de Oliveira

De primeiro, o trem da Mogiana saía de Franca, passava pela estação de Covas, lá se abastecia na caixa d’água, viajava até Guapuã, dali continuava sua marcha, soltando fumaça e silvos por Indaiá, Pedregulho, Igaçaba... até atravessar o Rio Grande, ir enfrentar as serras de Minas Gerais.
 
A estação de Indaiá virou saudade. Guapuã foi engolida por Cristais. Covas virou Miramontes, devorado na fome voraz de crescimento de Franca. Acabou bairro da cidade que, ano a ano estende suas garras.
 
Os nomes se sucederam, mas foi Covas que permaneceu sempre no meu coração de menino.
 
Pelo antigo arraial de Covas passei muitas vezes com meu pai, tangendo vacas do patrão Horácio Rosa. E foi por volta de nove, dez anos, seguindo os passos de meu pai, que fui à casa dos irmãos Antônio Cinza e Manoel Jerônimo que, ainda hoje, permanecem vivos na memória dos mais velhos. Eram ambos benzedores – almas elevadas que se dedicaram, toda a vida, a atender doentes gratuitamente. Sua fama era grande e atraía necessitados de toda a região.
 
Os irmãos se foram, e Covas continuou importante: lá morava Celso Toledo, responsável por garrafadas milagrosas, sobretudo no que tangia à cura de bronquite e de doenças venéreas.
 
Situado a mais de mil metros de altitude, do arraial se avistava o Garimpo das Canoas com seus montes e serras. O panorama belo motivou o professor João de Araújo Malheiros a liderar movimento dos moradores, objetivando a alteração do nome do então vilarejo para Miramontes.
 
Conseguido o intento da comunidade, algum tempo depois, o morador Ricarte Soares compôs a trova, declamada ainda hoje pelo meu amigo Gaia, um dos mais antigos moradores do lugar:
 
O bairro de Miramontes
Outrora chamado Covas
Busca novos horizontes
Já que tem ideias novas
 
Minha ligação com Miramontes só fez aumentar à medida que os anos passaram, graças ao esporte.  Nos seus domínios, o time de futebol do bairro era uma potência, e, foi também lá, no seu campo de terra, que experimentei derrotas acachapantes. Mas foi também lá que sedimentei amizades que perduram ainda hoje: com os irmãos Amado Tavares e Joaquim Tavares, com o zagueiro Aires, com o impetuoso atacante Granduque.
 
Do antigo arraial, destacou-se um morador que, humílimo,  foi representar sua gente na Câmara de Vereadores de Franca, tornando-se, inclusive, presidente daquela casa.  Chama-se Evaldo e me honra ser seu amigo. Da mesma localidade, faz anos, uma mulher toma o coletivo e viaja até minha casa, uma mulher simples, de nome Zenaide, que me assessora algumas vezes por semana.
 
Nasci longe, muito longe de Miramontes.  Nasci do lado de lá de uma serra que não se consegue mirar desde a antiga Covas.  No entanto, minha convivência com tanta gente daquele local fez também meu aquele pedaço de chão.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras