A fênix

Por: Maria Luiza Salomão

No dicionário a palavra autoestima, grafada sem hífen, quer dizer “qualidade de quem se valoriza, se contenta com seu modo de ser e demonstra, consequentemente, confiança em seus atos e julgamentos.” 
 
Como se perde a confiança no que se faz e no que se julga? Como e o que leva à desvalorização de quem se é, tendo, como consequência, sentimentos de inveja, ciúmes, “complexos” em relação ao que supomos não ser?
 
Um labirinto pessoal. Difícil responder às questões, já que não existe uma receita, ou uma chave que abre todas as portas. 
 
Quando vi o goleiro da seleção chorando copiosamente antes de defender os pênaltis para o Brasil contra o Chile, confesso que me preocupei. Parecia uma desistência da luta. Depois de defender dois a favor do Brasil, ao final, Júlio César continuou chorando. Revendo a história do goleiro: na Copa 2010 Júlio César sofreu com a desqualificação da seleção e isso lhe custou um tipo de exílio no futebol canadense. 
 
A autoestima despenca (ou sobe) por ser um processo que começa e termina no mesmo ponto: o eu. Todas as autoqualificações exigem convicção interior. Podemos enganar os outros com máscaras eficazes, mas não conseguimos enganar a nós mesmos. 
 
Não ter autoestima equivale à chamada queda de resistência, em termos corporais. Estamos fortes na alma, quanto maior a confiança e valor conferidos às nossas ações e julgamentos, mesmo às intenções. 
 
Sustentar a solitária existência, no sentir-pensar-agir, apesar da vaia de multidões; estar imune à onda de modismos, histerias coletivas. Isso é o cerne duro da autoestima. 
 
Ver Julio César defender os pênaltis é assistir um eu desabrochar em força e fé diante dos nossos olhos: há uma graça deliciosa no fenômeno. Nada mais triste do que assistir ao murchar do senso de si, desaparecimento da “propriocepção” de quem se é. Nada mais triste do que ver o eu descer a ladeira do desprezo por si próprio e desistir crescer, lutar, ressurgir. 
 
Não se trata de imagem exterior, de caras e bocas, de sentimentalismos artificiais: importa o cerne duro da construção contínua e lenta de uma identidade à prova de furacões e brisas, ressacas e marasmos. 
 
Resistir, re-existir, é a senha para uma autoestima saudável: fé é o motor, fênix é o emblema.
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras