Tango

Por: Everton de Paula

Nunca estive em Buenos Aires. Nunca dancei tango. Nem ao menos vivi alguma profunda paixão embalada por um tango argentino. Nada. Mas nas minhas madrugadas insones, perdidos em meus passos vãos, indecisos pela casa sombria, ouvindo o rádio em ondas curtas, sintonizo potente emissora portenha, ouço tangos no albor platino... E minha alma se cala!
 
Entre as muitas lembranças de eu criança está a de meu pai, tronco ereto, sobrancelhas espertíssimas, sentado ao piano, pernas cruzadas, cigarro aceso no canto dos lábios, olhos semicerrados, executando La cumparsita no velho e negro piano Pleyel da família. Cena que se repetia a cada visita em nossa casa, amigos, tios e tias, conversas confusas que se cruzavam nos ares, risos, meias de seda... E minha mãe tão moça, tão bonita!
 
Talvez o tango em si não tenha sido mais fortemente absorvido por mim, quando pequeno, do que as cenas familiares, porque tango não é para criança, e sim para gente adulta com cicatrizes na alma. A velocidade e precisão das informações e as tecnologias de ponta não conseguiram varrer de meu interior essa retenção tão distante de nossa cultura, a habanera e o tango andaluz popular nos subúrbios de Montevidéu e Buenos Aires nos fins do século XIX, que vieram a ser absorvidos pelo tango argentino nos idos 1940. O tango aproximou-se de mim logo que conheci as primeiras desilusões próprias um moço enamorado. E saber que a época era dos Beatles!
 
O tango me fascina, arrebata-me, mas não me deixa feliz. Como haveria? Quando o ouço cantado, até o timbre fanhoso do cantor se revela melancólico. Há um forte sentimento de desolação, de abandono, de traição, de despedida como em Caminito... Sensualidade, pernas morenas de dançarina esbelta, lábios de carmim, cabelos lisos presos em coque, febre nos quadris, abandonando-se aos movimentos do companheiro.
 
O tango parece-me uma lição de vida: a tristeza e a decepção devem ser levadas com elegância. Mas confesso: trago algumas dúvidas sobre a tristeza do tango, compartilhada por brasileiros e argentinos. Como disse, guardo de criança a imagem de minha família cantando tangos tristes como Mi noche triste ou Si se salva el pibe, e imediatamente passavam a cantar uma alegre música italiana. Não sei como podiam passar tão rapidamente de um sentimento a outro. Depois, mais velho, aprendi que o controle da expressão dos sentimentos caracterizava o treinamento do ator profissional. Ninguém em minha casa era ator. De fato, é conveniente aos brasileiros pensar que o tango é triste porque a música popular brasileira seria alegre. Mais um caso para reforçar as identidades. Contudo, temos muitos exemplos de música brasileira triste e de tangos alegres. Existem poucas investigações comparativas sobre o tema, e talvez seja difícil fazê-la e que interessasse a poucos um resultado. Imaginem se os dois países possuíssem o mesmo percentual de músicas “tristes”. Que confusão para as identidades! O segundo acordo é que o tango e o futebol (já que estamos em plena Copa do Mundo) não se relacionam. Os tangos que Carlos Gardel escreveu mostram esta relação, dedicada aos cavalos de corrida, mais ainda como apostador empedernido. Quem estiver me acompanhado, há de se lembrar Por uma cabeza...  
 
Na contracapa de um CD de tangos há estampada a foto de um bar que imagino arredores de Buenos Aires. O piso quadriculado de preto e branco denuncia a idade do prédio, quase secular. No fundo, à mesa, um senhor olha para a calçada varrida na manhã clara, queixo repousado nas palmas da mão, cotovelos sobre a toalha manchada de vinho... No balcão, no mais puro estilo milongueiro, um jovem debruça-se sobre o copo. Calças largas, brancas, amarrotadas, sem vinco; mãos calosas e o mesmo olhar triste, quase assombrado, longe, ausente. As janelas lembram os desolados edifícios da decadente Havana, insistindo na afirmação de que num tempo passado presenciaram agitação febril, alegria incontida, o que contrasta com a melancolia de agora.
 
Tudo parado, parado e quieto; não há uma brisa sequer que ondule, ao menos de leve, a pesada cortina vermelha do bar que separa dois ambientes.
 
O homem do balcão da foto sugere que a alma argentina é assim mesmo, calada numa tristeza imensa, mas orgulhosa de um passado disforme, dúbio, respingos peronistas, de Evita e do marido morto, perdido na ausência de uma identidade nacional própria. 
 
Dizer que Buenos Aires continua sendo a Paris da América Latina é elogio ou praga? 
 
Nunca entendi muito bem essa depressão coletiva portenha, tema de tantas teses acadêmicas; mas sinto-a forte e sonora nas ondas de um tango.
 
Meus passos continuam perdidos nas madrugadas insones, enquanto meu pensamento voa, atravessa fronteiras e pousa no albor platino. Ao fundo, um tango de lascar a alma.
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 

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