Frankenstein e a seleção canarim

Por: Maria Luiza Salomão

texto escrito antes do jogo Brasil 1 X 7 Alemanha; re-editado depois
 
 
Se futebol fosse matemático não haveria tantos comentaristas e intérpretes da arte futebolística. Nem o técnico seria tão questionado. Os jogadores teriam desempenho previsível, etc. e tal. 
 
A tradição do futebol brasileiro enfatiza a ginga, o improviso, a mágica do jogador individual, o craque, que, no repente, arma as jogadas e faz o gol; que carrega a defesa nas costas, ou nos pés, e voilà, o goleiro se vê meio que sozinho com o súbito lance. A seleção começa Frankenstein e vai se tornando orgânica, amadurecendo. 
 
Futebol europeu é: bunker/tática/preparação física/artilheiro, em um articulado bloco, defesa, meio de campo, ataque. Contemporaneamente: os europeus mostram disciplina e flexibilidade: adaptabilidade e atenção focada no adversário, análise e estudo. 
 
A seleção canarim precisa madurar, eu temo pela semifinal. Perde Tiago Silva e Neymar, e parece ir ao campo sem considerar o perigo, o risco alemão. Torço por um verdadeiro milagre; um Fred que desencante; que Willian cresça e apareça; que David Luiz se desdobre; que Oscar desentrave; que Bernard nos surpreenda com “alegria nas pernas”. Um time- Frankenstein, que ainda não é time. 
 
Nascemos como seres uterinos, semelhantes ao pai e à mãe, como mutantes genéticos; depois, acrescentamos parecenças “aos pedaços”: a qualidade de um professor; outra de um amigo; um rabo de luz de alguém-meteoro na nossa vida; algo de alguém fascinante ou de um grande amor acabado; pedaços de um personagem literário com quem nos identificamos. Somos resultado de uma miríade de identificações. Das superposições, das sombras de outros absorvidos aos pedaços, surge, na saúde, um eu plural, com luz própria, uma autocriação. De Frankenstein desconjuntado, temos a percepção intermitente de um todo orgânico, progressivamente articulado, a que finalmente chamamos de eu. Nascemos tempos depois de saídos do útero que nos gerou. Em algum momento, criamo-nos: do caos articulamos um provisório e oscilante cosmos. Assim pensava eu que pudesse nascer a nossa seleção canarim, tenra e imatura, inexperiente. 
 
DEPOIS DO JOGO. 
 
Pergunta de Júlio César, goleiro: “como explicar o inexplicável?” 
 
A seleção Frankenstein permaneceu caótica: pior, esfacelou-se. O que houve? O grupo entrou em pânico. Alguém pergunta, no intervalo do jogo: “quando vai começar o jogo do Brasil?”.
 
Tinha medo de outras coisas nessa Copa: desmoronar algum estádio (caiu um viaduto em Beagá!), tragédia com mortes e assassinatos. Saímos massacrados metaforicamente. O resultado contra a Alemanha retrata, metonimicamente, o Brasil em outros campos, em outras cenas?
 
Se assim estamos retratados, urge eleger novo cosmos desse caos. No futebol, no país. 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)

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