Para bom entendedor...

Por: Everton de Paula

Costumava passar as férias de verão na pequena cidade de A...
 
Eram pouquíssimas as diversões urbanas, salvo o cinema, um clube de esquina e jogos intermináveis de sinuca. Outra forma de se passar o tempo consistia em sentarmo-nos, jovens, nos bancos do jardim, sob uma imensa árvore. As conversas e brincadeiras varavam tardes completas, entremeadas pelo sino da igreja, marcando horas e forçando-nos a planejar algo para mais tarde. Aliás, vivíamos esse pequeno drama: por não ter quase nada a fazer, ocupávamo-nos de “planejar algo para mais tarde”, mesmo de realização inalcançável como uma serenata para as já mocinhas da cidade. Iria encantá-las, com certeza, mas o guarda-noturno impediria qualquer cantoria que perturbasse o sossego das madrugadas daqueles quarteirões.
 
Não havia asfalto. As ruas eram pavimentadas por paralelepípedos para dar passagem a este e aquele outro carro.
 
Por volta das três da tarde, ligavam a fonte luminosa, sem luz ainda mas com água suficiente para nos refrescarmos ao redor.
 
O que chamava a atenção de quem visitava esta cidade era o número de garotas, bem superior ao dos rapazes. Elas ditavam sutilmente certas regras de comportamento, mas não conseguiam se livrar de um costume: os rapazes dizerem galanteios a elas na rua. Tais elogios iam desde um simples “Olá, beleza!”, até coisas complicadas como “Viva a mãe que te criou!”, “É de fechar o comércio!”, ou “É a nora que minha mãe pediu a Deus!”
 
Elas se sentiam lisonjeadas com esses ditos, embora fingiam não escutá-los. Talvez uma delas teria dito (mas ninguém prova) algo parecido com “Eu ficaria profundamente ofendida se saísse à rua e ninguém me dissesse nada.”
 
Os rapazes também gostavam disso tudo e comentavam com os visitantes: “Geralmente elas dão um sorriso satisfeito, e depois fingem que não ouviram nada. Mas só vendo como elas saem orgulhosas!”
 
Tomou vulto a coisa, até chegar ao ouvido do pároco da cidade, padre Laércio. Em algumas missas, posicionou-se contra esse costume. Falou e falou, por mais de semanas. Cidade pequena, católica, temente à palavra de Deus e de seus representantes aqui na Terra, as famílias foram instruindo seus filhos a se comportarem com discrição frente às moças na rua. Quem dirigisse agora algum galanteio, poderia figurar numa lista dos mal-comportados.
 
Desapontamento geral. Por parte dos rapazes e das sensíveis mocinhas, que já sentiam falta de um elogio público.
 
Mas os rapazes resolveram o caso: toda vez que passava uma moça bonita, eles cobriam a boca com a mão. Ou seja, estavam querendo dizer algum galanteio, mas a convenção católica, familiar e urbana impedia. A boca tapada pela mão, às vezes até com as duas, significa algo muito maios que a própria voz em bom tom. Isso geralmente desarmava as pequenas... E as contentava, com certeza.
 
O padre calou-se. A cidade consentiu. Tive notícias de que dali saíram muitos casamentos. 
 
O tempo passou. Ah, e como passou! Não retornei mais àquele conjunto de procedimentos, àquelas amizades.
 
Voltei à cidade de A... há poucos dias. A árvore havia sido derrubada e as mãos dos rapazes da praça central não mais tapavam a boca: agora dirigiam negócios, teclavam nos computadores, moviam-se febrilmente nos celulares, esfregavam-se aflitas.
 
Nem um aceno de boas-vindas.
 
No ar, um cheiro de óleo diesel.
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 

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