Dúvida

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Segura e independente, Clarice tinha uma vida ativa e alegre que a preenchia plenamente. Os seus cinquenta anos pareciam quarenta, dada a sua jovialidade e seu porte pequeno. Seus cabelos eram curtos e claros, pele morena bem cuidada e grandes olhos castanhos. Interessava-se por arte e literatura, partilhando com Augusto sua seleta biblioteca. Tinham um convívio agradável e sereno, em um relacionamento estável. A cidade grande onde moravam oferecia muitas opções de lazer e ambos eram felizes, iam juntos a teatros, cinemas, restaurantes e às compras. Ele, já aposentado, administrava os bens, enquanto ela conciliava seus projetos de arquitetura com a paixão por viagens pelo Brasil e pelo mundo. Neste ponto ela diferia de Augusto, pois este não as apreciava. Ia sozinha ou com amigas que formavam um grande grupo e, muitas vezes, reuniam-se em sua casa para planejar destinos ou comentar passeios. Foi para elas que perguntou, naquele dia, se o brinco que encontrara caído, perto do sofá, era de alguém. Nenhuma delas o tinha visto antes. Desde que o achara uma ideia não saía de sua cabeça: como aquele brinco azul arredondado, com três pedrinhas brilhantes penduradas fora parar em sua casa. Faltava perguntar a Augusto, mas não sabia como fazê-lo. A resposta dele poderia ter desdobramentos desagradáveis e Clarice não queria que isto acontecesse. “Mas há ideias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam,” disse o escritor Machado de Assis. Bem no seu íntimo, havia uma leve suspeita de que outra mulher pudesse ter ido a sua casa, na sua ausência e deixado lá o objeto de suas preocupações. Isto só poderia ter acontecido através de Augusto, o que ela pensava ser quase impossível, devido ao seu caráter que conhecia bem. Certo dia encheu-se de coragem e contou sobre o estranho achado e ele, muito calmamente, disse:
 
— Fui eu que o coloquei lá. Queria demonstrar meu amor, provocando ciúmes, pois me sinto muito só quando você viaja. 
 
Clarice, surpresa com esta atitude imatura, sorriu aliviada. Em seguida, começou a preparar o roteiro para a próxima viagem. 
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora

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