Tempos Extremos

Por: Sônia Machiavelli

256938
Soledade de Sinhá foi o nome escolhido por Miriam Leitão para a fazenda centenária, incrustada num vale mineiro, em região entranhada das Gerais, onde colocou várias gerações de personagens que movimentam a trama de Tempos Extremos, título com que estreia na ficção.
 
A autora nem precisaria dizer que é apaixonada por Guimarães Rosa: Soledade de Sinhá casaria perfeitamente com um daqueles mágicos lugares do norte de Minas descritos no livro de contos Tutameia. E o enredo também não ficaria tão distante daqueles que ganharam o mundo pela verve do grande escritor, dos maiores da literatura universal. Uma família, dividida por antigos ódios, lida como pode com heranças custosas. Apenas dormitam nos porões da fazenda ainda imponente e no seio da família proprietária os segredos sobre fatos mal resolvidos. Caberá à protagonista Larissa despertá-los, desvendá-los, talvez exorcizá-los. 
 
Há o passado onde a escrava Paulina teceu com sofrimento a sua vida marcada pelas feridas da exploração brutal ; e há o presente onde Larissa percorre diferentes momentos em busca de respostas a mistérios sobre sua origem paterna e sua família materna. Entre um tempo e outro, emerge a ditadura militar que por 21 anos fez muito estrago no Brasil.
 
Tanto em Paulina, resgatada de um tempo já longínquo, como em Larissa, plantada no século XXI, percebe-se a indignação diante da injustiça, um sentimento que as leva a encarar o medo para enfrentar consideráveis obstáculos. As histórias dessas mulheres singulares, por sua coragem e pela capacidade de suportar grandes cargas de dor, cruzam-se inesperadamente, e apontam um desafio que às vezes lhes parece , e também ao leitor, intransponível: elas desejam enterrar seus mortos e viver seus lutos. Não de forma gratuita já se disse que se assemelham a uma personagem grega de forte viés trágico: Antígona, de Sófocles. A narradora alcança grandes momentos quando faz dialogar entre si a senzala da fazenda para onde iam os negros depois da sofrida travessia do Atlântico as celas às quais eram conduzidos os dissidentes do regime militar implantado no Brasil em 1964. O tema da privação de liberdade é reiterado ao longo dos capítulos. 
 
O fio condutor da narrativa é pois Larissa, 38 anos, casada, sem filhos. Jornalista por algum tempo, não suportou a competição dura e às vezes desleal nas redações por onde passou, e fez opção pela vida acadêmica, foi estudar História. E é de História que trata a narrativa. Numa reunião familiar em fim de semana, para comemorar na citada fazenda o aniversário de 88 anos da avó Maria José, a protagonista desenvolve um tipo de percepção que a conduz ao descortino de segredos muito bem guardados.
 
A estrutura do romance exibe de forma clara as três camadas de tempo, que a autora trabalha com equilíbrio, sem deixar que se soterrem ou que uma ganhe mais visibilidade que outra. Lidando com muitos personagens e situações, o desafio é mantê-los na cena e provocar interações que não pareçam artificiais. Miriam Leitão se sai muito bem neste exercício vital à ficção de boa qualidade.
 
Com sensibilidade na descrições, a autora reabilita um passado mais remoto destacando o drama vivido pelos escravos daquela fazenda, cujos ares foram impregnados por lutas inglórias e sofrimentos atrozes de negros como Constantino e seus filhos, Paulina e Bento, recortados em situações de extrema humilhação. Ao mesmo tempo, o relato conduz o leitor a um passado mais recente, onde os excessos da ditadura se revelam com acidez. Nele estão vivos ainda o assassinato do pai de Larissa, militante de esquerda, e a prisão de sua mãe, Alice, que nunca perdoou o irmão, Hélio, militar de carreira, por ter-se recusado a ajudá-la no momento em que foi presa e, depois, torturada. O presente, que desvela as relações difíceis desses irmãos; de mãe e filha; de avó com neta e filhos, também da protagonista com seu marido jornalista, é o tempo onde as feridas do passado podem ser pensadas num primeiro momento, e depois, quem sabe, cicatrizadas.
 
Pela história desta família brasileira a narradora leva o leitor a refletir, entre tantas outas propostas, a respeito de duas questões cruciais. A primeira delas, a importância do passado que nos explica de forma inapelável. A segunda, o erro representado pela recusa à discussão, ao confronto de opiniões e atitudes. Protelações apenas adiam o momento do enfrentamento. E o passado, com toda sua força, reaparece quando menos se espera, assim como a sombra do vulto que surpreende Larissa, heroína moderna que não foge à luta. Bem parecida com sua criadora, diga-se de passagem.
 
 
ESCRITORA
 
Miriam Leitão é de Caratinga (MG). Publicou dois livros de não-ficção (Convém sonhar, em 2010; e Saga brasileira, em 2012) e dois títulos para o público infantil ( A perigosa vida dos passarinhos pequenos, em 2013; e A menina de nome enfeitado, em 2014). É jornalista de TV, rádio, jornal e mídia digital. Em quarenta anos de profissão, recebeu vários prêmios, entre eles o Maria Moors Cabot, da Universidade Columbia, de Nova York. Ganhou o Jabuti de Livro de não ficção em 2012 por Saga Brasileira. É casada com Sérgio Abranches, tem dois filhos, Vladimir e Matheus, e um enteado, Rodrigo. É avó de Mariana, Daniel, Manuela e Isabel.
 
De certo modo, Míriam manteve seu lado jornalista durante a construção de Tempos extremos. Há anos se debruça sobre documentos, registros históricos e livros que relatam as atrocidades cometidas contra os escravos no Brasil. Devido ao interesse pessoal e às coincidências da profissão, Míriam teve a oportunidade de produzir a reportagem sobre as descobertas do Valongo e do cemitério dos pretos novos localizados na Zona Portuária carioca, em Arqueologia da escravidão. O outro especial abordou os familiares que sofrem até hoje com o desaparecimento político de seus entes, em Caso Rubens Paiva: uma história inacabada. As duas reportagens exibidas pela Globo News foram agraciadas com prêmios jornalísticos: Prêmio Abdias Nascimento 2012 na categoria menção honrosa e Prêmio Vladimir Herzog de 2012 na categoria reportagem de TV, respectivamente. Além dos programas, a autora reconhece a importância de ter tido acesso à exposição Registros Privados da Escravidão, apresentada na Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Na ocasião, Miriam se aprofundou nos detalhes das relações entre as sinhás e suas escravas para recriar o ambiente citado em um dos capítulos. Inclusive, foi durante a visita que a autora teve a inspiração para o nome da personagem Paulina. Ávida leitora desde a infância, diz que o livro que mais a marcou na vida foi Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. (SM)
 
 
Livro
 
Título: Tempos extremos
Autor: Míriam Leitão
Editora: Editora Intrínseca
Páginas: 272
Preço: R$ 24,90
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras