Construindo memórias

Por: Eny Miranda

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Papai chegou com os ingressos, assim, de surpresa (era mestre em surpresas agradáveis, o meu pai). Uma festa! Naquela noite, assistiríamos a um amistoso entre o meu clube, o Fluminense, e o espanhol Deportivo de La Coruña, no Maracanã. Eu devia ter uns 11 ou 12 anos e sonhava em conhecer o “maior estádio do mundo”. Foi a primeira de muitas outras idas. Naquele tempo, as famílias podiam frequentar estádios como frequentavam cinemas ou teatros: tranquilamente.
 
Lembro-me do momento em que papai nos deu a notícia (hora do lanche. Estávamos em torno da mesa da copa. Era quarta-feira); da exata posição de meu corpo naquele instante (ainda de pé, inclinada para a frente, puxava a cadeira para me sentar, enquanto conversava com o primo Luiz, que nos visitava); da roupa que escolhi para vestir (saia branca estampada em arabescos pretos, e blusa branca com gola do mesmo tecido da saia). Lembro-me também de que, afinal, o Fluminense venceu, mas - interessante - não me lembro do placar do jogo. Contudo, o que ficou gravado em relevo no meu coração foi, à chegada, a visão do campo: um tapete de pura esmeralda cintilando à luz dos refletores. Momento de êxtase, de encantamento. E durante todo o jogo, além das cores em movimento, da beleza das boas jogadas e dos gols, havia o espetáculo oferecido pelos incontáveis lumens, piscando aleatoriamente no espaço escuro à volta do grande círculo verde (isqueiros ou fósforos, acendendo cigarros). Ali estava o que eu nunca tinha visto antes. Ali, o pasmo de quem descobre “a eterna novidade do mundo”. E só o que foi visto conservou-se intacto nos escaninhos da memória, puramente imagética. O coração permanece tranquilo - pulsos nem mais nem menos fortes - a essa lembrança. 
 
E tal lembrança não me veio agora involuntariamente, como aquela da Combray da infância veio a Proust, já adulto, ao sabor da “petite madeleine” embebida em chá de tília, a ele oferecida por sua mãe em um dia de inverno (a primeira, depois das degustadas, quando menino, no quarto da tia Leôncia). Em parte, resgatei-a voluntariamente, atravessando os véus dos anos, transpondo nuvens espessas de tempo, e em parte ela surgiu, sem muito esforço, à vista das tantas crianças que nos últimos dias têm ido a um estádio de futebol, provavelmente, pela primeira vez, neste momento festivo de Copa do Mundo, em que famílias inteiras lá estão. 
 
De casa, pela televisão, via seus olhos brilhantes, suas faces pintadas, suas expressões de assombro diante do nunca visto antes, diante da “eterna novidade do mundo”. Prazer delicioso, poderosa alegria. Estou certa de que o sabor de muitas madeleines mergulhadas em chá de tília estava sendo experimentado ali. 
 
Já na última terça-feira, nossas crianças provaram o gosto de um bolo embebido em chá amargo. O Brasil perdeu. E perdeu feio, de uma forma e por um placar que muitas tentarão esquecer, mas que provavelmente resgatarão da lembrança à visão de cada nova partida - o que, para elas, talvez seja bom, porque acabará por fazê-las rever o episódio sempre de outra forma, cada vez menos assustadora, menos avassaladora, menos traumática.
 
A professora Maria Lúcia de Faria, doutora em Ciência da Literatura (Poética), refletindo sobre a memória involuntária no episódio da madeleine de Proust, lembra que só ela (a memória involuntária) pode trazer à tona a vivência primeira, carregada de suas mesmas emoções; só ela é capaz de fazer ressurgir “aquele inefável misto de novidade e antiguidade que é a marca inequívoca da origem”. E que “foi por nunca mais [Proust] ter comido a ‘madeleine’ desde a infância que [seu] sabor pôde arrastar atrás de si o ‘edifício imenso da recordação’”. Para ela, “o episódio da ‘madeleine’ prova que o esquecimento é o verdadeiro guardião da memória.” Em suas palavras, “a atualização reiterada, a recordação repetida é que irremediavelmente fazem escoar a lembrança [viva] pelo ralo do esquecimento, que conduz ao limbo de onde não há resgate possível.” 
 
Que isso nos sirva de consolo e que, para as nossas crianças, essa experiência revisitada possa fazer parte da matéria prima usada na construção - equilibrada - do imenso edifício de suas emoções.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista

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