Os deuses vencidos

Por: Chiachiri Filho

Por algum tempo, eles viveram no Olimpo. Eram deuses. Viviam nas alturas.  Resplandeciam como as estrelas.  Irradiavam luz, calor e  energia. Movimentavam-se com graça, bailavam nos tapetes verdes com seus passos mágicos. Atacavam como raios. Defendiam como Titãs. Eles eram o foco e o alvo, o fascínio e o encanto.  Eram incessantemente perseguidos pelas objetivas dos fotógrafos, pelas câmeras de televisão, pela curiosidade  dos repórteres. Cada momento de suas vidas era registrado, publicado  e divulgado. Suas biografias, sempre comoventes, eram contadas. Sim, eles eram deuses, viviam como deuses. Eram símbolos da raça, exemplos para a juventude das favelas ou dos condomínios fechados. Sobre eles projetavam-se a esperança e a vaidade de um povo. Sim, o país parou, o mundo parou. Parou para vê-los, para ouvi-los, para admirá-los.   Como deuses, eles desfilavam  no palco da glória . 
 
Foi aí que ocorreu a  invasão dos  bárbaros  germânicos. Avassaladores, os alemães  chegaram e, em pouco mais de 10 minutos, derrubaram os castelos, apossaram-se dos estádios, destruíram os tronos e desalojaram os reis e as divindades.  O sonho acabou. Os deuses perderam a sua auréola de luz e se mostraram ao povo tais e quais  são na realidade: humanos. Humanos, simplesmente humanos, de cujos olhos brotaram lágrimas de dor e sofrimento. 
 
Os deuses não choram, não cansam, não sofrem, não perdem o poder, a graça, a beleza. Nada mais humano do que a lágrima vertida, a dor sofrida, o desespero, o desequilíbrio, o sentimento de perda e derrota. 
 
Sim, os deuses foram vencidos e, por terem sido vencidos, tornaram-se humanos e, como humanos que sempre foram, ficaram parecidos conosco. Passaram a ter a nossa cara, a nossa cor, a nossa fragilidade, as nossas limitações. Ficaram sujeitos às contusões, ao cansaço, às pressões, ao desequilíbrio causado pelas fortes emoções. Agora eles podem perder e chorar. Agora eles podem pedir desculpas ao seu povo.
 
Não, não ficamos com a taça, com o hexa. Sobrou-nos apenas um pequeno cálice de fel que, vagarosamente, iremos  sorver  por muitos anos. Mas, certamente, Fênix renascerá e, um  dia não muito distante, em terras estranhas, longe de uma torcida fanática, levantaremos a taça da glória e recolocaremos os nossos heróis no Olimpo.
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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